domingo, 31 de maio de 2015

Urbanismo e Desenvolvimento: a árvore e o ornamento

O Evento
Em setembro de 2014 a UFMS/NA realizou uma roda de conversa com a temática título deste post cujo objetivo era "[...] possibilitar aos participantes um momento de reflexão sobre a ética e a estética no uso de variedades e espécies vegetais na arborização dos espaços urbanos de Nova Andradina."
Não sendo um especialista no tema restou-me compilar, no modo de um fichamento, algumas leituras que me possibilitaram apresentar algumas ideias em torno dos elementos histórico-filosóficos envolvidos na composição da paisagem urbana.

Urbanismo, ser humano e natureza
O ponto de partida é a preocupação de Henri Lefebvre quanto ao estágio de desenvolvimento a que o urbanismo tem conduzido o ser humano (SOUZA). Dado a relação hodierna entre natureza e sociedade, não será exagero afirmar que o urbanismo tem nos condizido: 1º) à exclusão estética de nossa capacidade de percepção do belo e 2º) à exclusão ética de nossa capacidade de refletir sobre a finalidade (moral) da vida em sociedade.
Assim, ao longo do tempo, teríamos transitado de uma relação harmônica entre natureza e sociedade, encontrada entre os gregos clássicos, para uma dicotomia desta relação, encontrada na atualidade.

A harmonia entre natureza e sociedade
Como os gregos concebiam a relação entre natureza e sociedade? Na Grécia Clássica a pólis (cidade) é uma extensão da physis (natureza). O que isto significa? Significa que ao organizar a pólis os gregos são movidos pela tentativa de estabelecer a harmonia entre os seres humanos e seu meio.
O que é a physis, neste contexto? É o elemento vital de onde tudo se origina (inclusive o próprio ser humano). Ela é o mundo ordenado ao qual os pré-socráticos se referiam em oposição ao caos.
Assim, o homem grego não está alheio à natureza. Ele recebe dela, enquanto ser vivo, uma ordem que deve respeitar ao longo de sua existência. O que isto quer dizer? Exatamente que a natureza está no ser humano e o envolve. A natureza une o ser humano ao mundo e orienta sua forma de viver. 
Não se pode fazer, por isto, tudo o que se quer, mas se deve fazer aquilo que é Bom. E o que é o Bom? Bom é tudo aquilo que fortalece o vínculo harmonioso entre homem e natureza.
Neste sentido, os estóicos sustentam que viver conforme a natureza não significa renunciar a razão, mas viver feliz. A natureza é concebida como um guia da ação moral humana.
Para Aristóteles, por sua vez, a natureza é dotada de uma finalidade/telos (MARCONDES). O ser humano é parte da natureza.
Qual é a finalidade da natureza?
Cada coisa que pertence à natureza deve realizar seu potencial. Este processo é imanente ao Ser. Está na natureza própria das coisas existentes. Quanto ao ser humano, o processo de realização de sua potencialidade depende das decisões corretas que tomar.
Disto decorre a importância da ética, racionalidade prática, que conduz o homem às decisões corretas objetivando instaurar a vida virtuosa cujo objetivo central é a felicidade (eudamonia), entendida como realização plena do potencial humano.
O que é a felicidade e como o ser humano pode alcançá-la? Na metafísica aristotélica a felicidade é a contemplação das verdades eternas. O homem a atinge na medida em que aquilo que faz corresponde à excelência humana e é bem feito.
É importante nos perguntarmos como Aristóteles partilha da concepção grega de integração do ser humano com o mundo natural de forma harmônica?
Primeiramente, para o filósofo grego, o ser humano é parte da natureza (MARCONDES) e, posteriormente, para Aristóteles o saber técnico (téchne), por meio do qual o ser humano intervém na natureza, deve ser subordinado à decisão, isto é, ao saber prudencial ou ação correta. Esta evita os extremos (excesso e falta) e estabelece o meio termo (justiça e equilíbrio) que conduz à felicidade.
Este momento da integração homem X natureza fundou um tipo histórico de cidade, a saber: a cidade política (SOUZA).

A Cidade Política, a Cidade Comercial, a Cidade Indústria e a Sociedade Urbana
A cidade política é o lugar do fórum público (SOUZA). É o local onde as pessoas se encontram, em espaços públicos, para debater a vida e a organização coletiva e democrática da cidade. Entretanto, com a ruptura da relação direta entre homem e natureza, a cidade política deu espaço à cidade comercial.
A cidade comercial, em contrapartida, é o lugar da troca (SOUZA). É o espaço de encontro entre pessoas que se reúnem para o escambo de coisas.
Agora, a cidade existe não mais isolada de um território (Cidade Estado grega). Mas, ela subordina a si todo o território que a circunda. A cidade passa a ser um centro de relações comerciais, predominantemente.
Com o advento da Revolução Industrial e a transformação do capital comercial em capital industrial surge uma nova organização do espaço urbano: a cidade indústria.
Nesta nova configuração a cidade passa a ser o lugar de depósito das pessoas (SOUZA). Nasce o espaço de alojamento das pessoas.
Este tipo de cidade surge perto das fontes de energia. A natureza está, assim, submetida e subjugada ao desenvolvimento da indústria. Esta promove o crescimento expansivo da cidade fazendo surgir a sociedade urbana.
A sociedade urbana é o espaço de dissolução da cidade (SOUZA). Forma-se um tecido urbano com territórios bem delimitados contendo: as periferias, os subúrbios, as cidades satélites e as conurbações.
Vivemos neste tempo em que a sociedade urbana possui uma dimensão planetária.
A era do urbano tem, desta forma, nos conduzido a um tipo de desenvolvimento impulsionado por uma organização racionalista (SOUZA) do espaço urbano que tem marcado a existência de espaços não democráticos, a chamada cidade-controle, e afirmado uma maior segregação das relações humanas.

Do que somos capazes?
Quais são os efeitos da sociedade urbana sobre seus habitantes nos aspectos ético e estético? O planejamento do espaço urbano tem aumentado a segregação social e não tem conseguido dar respostas satisfatórias às, cada vez mais crescentes, poluições visual e sonora.
Como efeito tem-se uma fuga para a subjetividade. Alguns sintomas são facilmente perceptíveis: aumento do uso de fone de ouvindo enquanto nos deslocamos pela cidade, uso cada vez menor das praças públicas e aumento do tempo que ficamos em casa, usufruindo das comodidades tecnológicas, substituição da rua pelo computador, troca da sombra das árvores pela comodidade do condicionador de ar.
A cidade tem se tornado um espaço urbano não familiar e destituído de afeto, emoção e significado. Nasce, assim, um homem desenraizado de seu lugar na medida em que por lugar se entende um território subjetivado e um espaço significado pelo homem. Em decorrência assiste-se uma fuga do ser humano para ambientes exóticos. Destaca-se a crescente busca pela natureza, pois ser humano, neste contexto, é ser longe do outro ou das práticas sociais que ocorrem na cidade.
O que está ao nosso alcance?
Compete-nos constituir ambientes esteticamente agradáveis que nos devolvam o sentido de pertença à humanidade? Sim, mas não só. Ao lado do arranjo estético (árvore ornamento) a cidade precisa ser o locus privilegiado (do exercício da democracia) da recreação, do lúdico e da espontaneidade social. A cidade é, hoje, o espaço daquilo que é fechado (condomínios), do privado (centros comerciais) e da troca - valor de troca (especulação imobiliária).
Compete-nos, ainda, superar a constituição da cidade em lugar onde se dividem as pessoas, politicamente e culturalmente, e superar também a compreensão do urbanismo, decorrente do surgimento do Estado moderno, como maneira de planejar, conceber, e estruturar as cidades em base ideológico-material ditada por um poder central (LOUREIRO).
Para Marx, é necessário transformar o conjunto das relações sociais e não somente a forma de organização de um espaço ou a mudança de comportamentos e atitudes.

FONTES:
LOUREIRO, Frederico. Karl Marx: história, crítica e transformação social na unidade dialética da natureza.
MARCONDES, Danilo. Aristóteles: ética, ser humano e natureza.
PACHECO, Cristiano Ricardo de Azevedo. Espaços não democráticos de relações humanas: interligações segregadas.
SANTOS, José Lázaro de Carvalho. Reflexões por um conceito contemporâneo de urbanismo.
SOUZA, J. Francisco Saraiva de. Henri Lefebvre: crítica ao urbanismo (1). In: http://cyberdemocracia.blogspot.com.br/

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