quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Geração pamonha versus geração macarrão instantâneo

A passagem do modo de vida rural ao modo de vida urbano é marcada por uma série de fatores de diferentes ordens. Sem dúvidas as mudanças mais facilmente percebidas estão no campo dos costumes e hábitos que afetaram diretamente as relações de convívio entre os homens.
A este respeito gostaria de fazer alusão a uma fala do educador Mário Sérgio Cortella referindo-se a uma das experiências de sua infância inerente à colheita do milho.
Rememorando sua infância, Cortella frisa que na vida rural qualquer motivo era pretexto para que a comunidade se reunisse. Era assim com a colheita do milho empregado no fabrico de pamonhas. A família e os vizinhos se reuniam logo cedo e com uma divisão simples de tarefas davam cabo à empreitada do dia. Uns colhiam o milho e outros descascavam-no; uns limpavam as espigas e outros ralavam-nas; alguns preparavam as palhas que serviam de recipiente para a massa crua da pamonha, enquanto outro grupo levava a pamonha ao fogão à lenha e, somente no final da tarde, todos se reuniam para degustar o prato.
Nisto já havia decorrido tempo suficiente para muitos casos, "causos" e histórias. Muita prosa se tinha "jogado fora". Era a tal da convivência. A pamonha era apenas um pretexto para o convívio coletivo que reforçava a identidade dos membros da comunidade.
Também vivenciei esta experiência quando residi no campo, no interior paulista, terra de caipira. No entanto, as colheitas eram outras: de algodão, de mandiocas e de feijão. Bons tempos aqueles. Em mutirão as famílias/os trabalhadores se reuniam para celebrar a colheita, regada a muita conversa. Estas são "coisas que não voltam mais", cantaria Francisco Petrônio.
A geração rural-pamonha, menciona Cortella, deu lugar a uma sociedade urbana-macarrão instantâneo. Por sinal, o pior deles, o tal de miojo. A massa e o tempero estão prontos. O tempo de preparo é irrelevante. Há alguns tipos de miojo que dispensam até o prato, podem ser comidos na própria embalagem, um copo plástico. As porções são sempre individuais. Não há como reparti-las, pois corre-se o risco de ficar com fome.
A geração miojo não é feita de pamonhas. Isto é, ela não perde tempo. Tudo está sempre à mão. O critério é: ser fácil e rápido.
Outro dia um aluno de meu curso de Filosofia da Educação, porta-voz da geração miojo, parou-me no corredor da faculdade e respeitosamente pediu-me: "-Professor, queríamos saber se não dá para o senhor falar mais o 'nóis' (sic), sabe".
Falar "mais o 'nóis'?" Deduzi que falar mais o 'nóis' fosse o mesmo que: "-Professor, fazer pamonhas dá muito trabalho e consome muito tempo. Por sinal, nos mercados elas são vendidas mesmo fora de época/safra e o senhor ainda pode escolher entre pamonha com sal (credo, que gosto), doce ou light". "-Pois é", pensaria eu: "-Mas, nenhuma é feita com o puro creme do milho". Entendi que contrariamente ao emprego do tempo das aulas discutindo e refletindo a respeito das bases antropológicas, epistemológicas e axiológicas da educação os meus alunos queriam que eu lhes dissesse: "-Para ser educador leve 500 ml de água ao fogo, junte o miojo à água fervente e após 3 minutos sirva-se à vontade". Pronto! A geração miojo é a geração das fórmulas acabadas e dos rótulos ilustrados. E eu, embora desconfie da obesidade da geração instatâneo-imediatista, ainda estou querendo dar aulas com o caderninho de receitas da vovó.