domingo, 10 de julho de 2011

Facundo Cabral: pobre do patrão, pois pensa que o pobre é o trabalhador

Outro dia, enquanto preparava uma aula cuja temática era a ideologia, deparei-me com a letra da música intitulada "Burguesia" (Cazuza, Ezequiel Neves e George Israel).
A canção faz uma crítica à burguesia paulistana. Pensei deparar-me, então, com o instrumento ideal para a ilustração do tema a ser estudado.
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
 não vai haver poesia
Parecia-me que encontrara o texto ideal para os propósitos de minha modesta aula. Mas, a "coisa" ainda ficaria melhor (na verdade ficaria pior) quando, ao final da letra, encontrei os comentários, sempre preciosos, de alguns 'internautas'. Dois deles me chamaram a atenção de modo especial, pois expressavam acentuadamente o poderio de atuação do discurso ideológico dominante. Passo a transcrevê-los abaixo:
"- A burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume."
e
"- A burguesia fede, mas paga meu salário".
Eureca! Estava bem ali nos comentários a capacidade de atuação do discurso ideológico em uma sociedade fraturada socialmente bem como uma corporeificação da própria crítica feita pela canção de Cazuza. As frases externalizam uma das características da ideologia, a saber: a inversão do real. A este respeito o barbudinho Marx assinalara no final do Século XIX:
 "- O ponto de vista dominante em uma sociedade é o ponto de vista da classe dominante ."

Tempos depois um outro camarada, de nome Neidson Rodrigues, reproduziu, em uma de suas obras, uma recapitulação sintética da frase marxiana:
"Ideologia: ou a arte de tornar a necessidade de alguns em vontade de todos."
 
Os comentários dos 'internautas' são de uma precisão impar no tocante à capacidade de atuação do discurso ideológico dominante sobre o imaginário e sobre as representações mentais da maioria das pessoas. "A burguesia paga meu salário". A compreensão invertida da realidade, enunciada na frase, impede o internauta de compreender a tônica estrutural de sustentação da sociedade capitalista. A burguesia não consegue gerar capital a não ser explorando o trabalho - mesmo em contexto de automação das realações de trabalho e de "predomínio" do capital especulativo. Desta feita, é ele (nós) "rico internauta" que paga o soldo da "pobre burguesia", enquanto acredita que se realiza e se humaniza cada vez mais quanto mais a burguesia "pagá-lo", ou melhor, explorá-lo.

Aos 'internautas' para os quais foi difícil compreender a canção de Cazuza sugiro que fiquem com a narrativa e a canção de Facundo Cabral.