quarta-feira, 18 de maio de 2011

Procusto

A mitologia não é uma simples narrativa de feitos de deuses antropomorfizados que se divertem às custas do medo e da ignorância humana. Poderia se dizer que a mitologia também desempenha um papel de construção e solidificação dos laços sociais entre os membros de um grupo. É assim no mito de Édipo.  Narrado em sua época, dentre outros propósitos, para coibir o incesto. Sabedor da sorte desventurada que recai sobre o seu agente quem ainda ousaria praticá-lo?

Há vários mitos que se aplicam ao presente e às relações sociais que contraimos nos mais variados espaços que frequentamos. De modo particular gostaria de conferir breve atenção a um personagem da mitologia grega chamado Procusto.

Procusto vive em uma floresta, mas não se preocupem os mateiros e os ambientalistas. Sua diversão existencial não é abrir clareiras na mata, mas consiste em atrair os que por ali passam e capturá-los. É aqui que a história, ou melhor, o mito fica contundente. Ao capturar a vítima Procusto amarra-a em sua cama. Sugestivo? Aqueles infelizes que possuem tamanho maior que o da cama têm, então, parte de suas pernas amputadas pelo monstro mitológico. Aqueles, porém, que são menores que a cama são a esta amarrados e esticados até ficarem com um tamanho ideal. Observem que, nas duas situações, o modelo ideal é definido pela compleição e pela estatura do próprio Procusto.

A respeito deste mito Marcos Bagno escreveu, em certa ocasião, que o personagem de Procusto simboliza a intolerância humana frente ao desafio diário de viver com o outro. Prato cheio para a Antropologia Cultural. No entanto, gostaria apenas de frisar esta leitura de Bagno a propósito de uma ação humana no campo da educação - a administração. Quem é Procusto?

Olhando para o cenário educacional Procusto simboliza a incapacidade de lidar com a opinião contrária. Sua cama é o leito ideal de um projeto educacional que tem na sua base uma administração de tipo burocratizada e um discurso "democrático" embolado pró-qualidade. Tal projeto não está aberto à construção, ao diálogo, à contestação de suas bases científicas, antropológicas e axiológicas. Procusto é toda administração de natureza centralizada e corporativista, o que configura respectivamente o próprio modo de ser do Estado Moderno e da administração dos setores públicos estatais, dentre os quais se inserem as instituições públicas de educação.