sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Em 2012 veremos (novamente) o fim do mundo

O fim do mundo não está próximo. Ele já está em curso. Mas, ainda há o que ser feito para que isto não ocorra. A medida não é complicada. Para a sua operacionalização não será preciso desviar a trajetória de meteóros, não será preciso uma reforma econômica, política, educacional ou tributária. Não será preciso um apelo universal para que todos se convertam à fé.
Para se evitar o fim do mundo, ora em curso, será necessário apenas uma reconfiguração urbanística dos grandes centros populacionais. Basta que se fechem as praças. Some-se a isso umas outras pequenas medidas cautelares: 
a) disseminar a ideia de que o Irã é uma ameça à paz mundial; 
b) comprar o discurso do Ronaldinho, segundo o qual a Copa do Mundo de Futebol de 2014 não é da FIFA e muito menos da CBF, pois ela pertence ao POVO BRASILEIRO. [Eis aí o sentimento de soberania da nação. Custa-me, no entanto, entender como verbas públicas vão sustentar uma festa privada];
c) propagar a crença infundada de que o FMI e o Banco Mundial tem a fórmula para a crise dos países de economia central;
d) acrescente-se a estas, outras medidas no campo do entretenimento ilusionista das ficções cinematográfica e televisiva.
Qual mundo irá acabar em 2012, cujo declíneo já está em curso? O mundo daqueles que vivem, hoje, sob a emergência de uma redução nas taxas de acúmulo de capital ou será o mundo daqueles que já não suportam mais os arrochos às políticas sociais e trabalhistas?  Para que estes dois mundos não se acabem, acabe-se, antes, com as praças, sejam elas públicas ou virtuais.
Em breve veremos o fim do mundo, resta saber se estaremos nas praças.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Filosofia do ser

O ser e suas "manifestações ocultas" em:
- dias felizes de náuseas: ser-veja;
- dias de amor: ser-verina;
- dias de missa: ser-mão;
- dias de atentado ao pudor: ser-vergonha;
- dias apocalípticos: ser-afim;
- dias de aborrecimento: ser-viço;
- dias de compras no shopping: ser-vidão consentida e voluntária.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Geração pamonha versus geração macarrão instantâneo

A passagem do modo de vida rural ao modo de vida urbano é marcada por uma série de fatores de diferentes ordens. Sem dúvidas as mudanças mais facilmente percebidas estão no campo dos costumes e hábitos que afetaram diretamente as relações de convívio entre os homens.
A este respeito gostaria de fazer alusão a uma fala do educador Mário Sérgio Cortella referindo-se a uma das experiências de sua infância inerente à colheita do milho.
Rememorando sua infância, Cortella frisa que na vida rural qualquer motivo era pretexto para que a comunidade se reunisse. Era assim com a colheita do milho empregado no fabrico de pamonhas. A família e os vizinhos se reuniam logo cedo e com uma divisão simples de tarefas davam cabo à empreitada do dia. Uns colhiam o milho e outros descascavam-no; uns limpavam as espigas e outros ralavam-nas; alguns preparavam as palhas que serviam de recipiente para a massa crua da pamonha, enquanto outro grupo levava a pamonha ao fogão à lenha e, somente no final da tarde, todos se reuniam para degustar o prato.
Nisto já havia decorrido tempo suficiente para muitos casos, "causos" e histórias. Muita prosa se tinha "jogado fora". Era a tal da convivência. A pamonha era apenas um pretexto para o convívio coletivo que reforçava a identidade dos membros da comunidade.
Também vivenciei esta experiência quando residi no campo, no interior paulista, terra de caipira. No entanto, as colheitas eram outras: de algodão, de mandiocas e de feijão. Bons tempos aqueles. Em mutirão as famílias/os trabalhadores se reuniam para celebrar a colheita, regada a muita conversa. Estas são "coisas que não voltam mais", cantaria Francisco Petrônio.
A geração rural-pamonha, menciona Cortella, deu lugar a uma sociedade urbana-macarrão instantâneo. Por sinal, o pior deles, o tal de miojo. A massa e o tempero estão prontos. O tempo de preparo é irrelevante. Há alguns tipos de miojo que dispensam até o prato, podem ser comidos na própria embalagem, um copo plástico. As porções são sempre individuais. Não há como reparti-las, pois corre-se o risco de ficar com fome.
A geração miojo não é feita de pamonhas. Isto é, ela não perde tempo. Tudo está sempre à mão. O critério é: ser fácil e rápido.
Outro dia um aluno de meu curso de Filosofia da Educação, porta-voz da geração miojo, parou-me no corredor da faculdade e respeitosamente pediu-me: "-Professor, queríamos saber se não dá para o senhor falar mais o 'nóis' (sic), sabe".
Falar "mais o 'nóis'?" Deduzi que falar mais o 'nóis' fosse o mesmo que: "-Professor, fazer pamonhas dá muito trabalho e consome muito tempo. Por sinal, nos mercados elas são vendidas mesmo fora de época/safra e o senhor ainda pode escolher entre pamonha com sal (credo, que gosto), doce ou light". "-Pois é", pensaria eu: "-Mas, nenhuma é feita com o puro creme do milho". Entendi que contrariamente ao emprego do tempo das aulas discutindo e refletindo a respeito das bases antropológicas, epistemológicas e axiológicas da educação os meus alunos queriam que eu lhes dissesse: "-Para ser educador leve 500 ml de água ao fogo, junte o miojo à água fervente e após 3 minutos sirva-se à vontade". Pronto! A geração miojo é a geração das fórmulas acabadas e dos rótulos ilustrados. E eu, embora desconfie da obesidade da geração instatâneo-imediatista, ainda estou querendo dar aulas com o caderninho de receitas da vovó.

domingo, 10 de julho de 2011

Facundo Cabral: pobre do patrão, pois pensa que o pobre é o trabalhador

Outro dia, enquanto preparava uma aula cuja temática era a ideologia, deparei-me com a letra da música intitulada "Burguesia" (Cazuza, Ezequiel Neves e George Israel).
A canção faz uma crítica à burguesia paulistana. Pensei deparar-me, então, com o instrumento ideal para a ilustração do tema a ser estudado.
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
 não vai haver poesia
Parecia-me que encontrara o texto ideal para os propósitos de minha modesta aula. Mas, a "coisa" ainda ficaria melhor (na verdade ficaria pior) quando, ao final da letra, encontrei os comentários, sempre preciosos, de alguns 'internautas'. Dois deles me chamaram a atenção de modo especial, pois expressavam acentuadamente o poderio de atuação do discurso ideológico dominante. Passo a transcrevê-los abaixo:
"- A burguesia fede, mas tem dinheiro para comprar perfume."
e
"- A burguesia fede, mas paga meu salário".
Eureca! Estava bem ali nos comentários a capacidade de atuação do discurso ideológico em uma sociedade fraturada socialmente bem como uma corporeificação da própria crítica feita pela canção de Cazuza. As frases externalizam uma das características da ideologia, a saber: a inversão do real. A este respeito o barbudinho Marx assinalara no final do Século XIX:
 "- O ponto de vista dominante em uma sociedade é o ponto de vista da classe dominante ."

Tempos depois um outro camarada, de nome Neidson Rodrigues, reproduziu, em uma de suas obras, uma recapitulação sintética da frase marxiana:
"Ideologia: ou a arte de tornar a necessidade de alguns em vontade de todos."
 
Os comentários dos 'internautas' são de uma precisão impar no tocante à capacidade de atuação do discurso ideológico dominante sobre o imaginário e sobre as representações mentais da maioria das pessoas. "A burguesia paga meu salário". A compreensão invertida da realidade, enunciada na frase, impede o internauta de compreender a tônica estrutural de sustentação da sociedade capitalista. A burguesia não consegue gerar capital a não ser explorando o trabalho - mesmo em contexto de automação das realações de trabalho e de "predomínio" do capital especulativo. Desta feita, é ele (nós) "rico internauta" que paga o soldo da "pobre burguesia", enquanto acredita que se realiza e se humaniza cada vez mais quanto mais a burguesia "pagá-lo", ou melhor, explorá-lo.

Aos 'internautas' para os quais foi difícil compreender a canção de Cazuza sugiro que fiquem com a narrativa e a canção de Facundo Cabral.

domingo, 19 de junho de 2011

Mafalda - o que é Filosofia?

Quando ainda não se conformou a ver o mundo com a mesma habitualidade com que o adulto o vê e quando ainda não se encontra cabalmente tomada pelo processo de socialização, a criança é capaz de estabelecer com a realidade que a circunda um vínculo bastante rigoroso. Tal contato é atravessado pelas atitudes desencadeadoras do conhecimento filosófico, nos moldes mencionados por Platão e por Aristóteles, a saber: o espanto e a admiração.

Se ao proceder desta forma a criança já deixa o adulto em maus lençóis dirigindo-lhe questões encabeçadas por um "por que" ou por um "o que", então, imaginem aquilo que ocorre quando a criança resolve perguntar a um adulto "o que é filosofia?". A personagem de Quino, nas tirinhas abaixo, que o diga.
Todo o ensaio preparatório de Mafalda parece expressar que ela sabe que, embora não seja um assunto inextricável, é improvável que o pai lhe dê uma resposta sem os rodeios habituais de quem vive à margem deste tipo de preocupação.
"E aí" que a falta de vivência com as atitudes filosóficas (admiração, rigor, radicalidade e reflexão) forçam o pai de Mafalda a conceber que os livros possuirão uma resposta à altura da "complexidade" da questão.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Pablo Neruda - Puedo escribir los versos más tristes esta noche

20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada, Pablo Neruda.


Obs.: este post não é recomendado para os apreciadores das composições musicais "Surra de Bunda"; "Atoladinha", "Cerol na Mão" e seus congêneres.

video

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo : 'La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos'.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oir la noche immensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.

Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos arboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto al amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque ésta sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Procusto

A mitologia não é uma simples narrativa de feitos de deuses antropomorfizados que se divertem às custas do medo e da ignorância humana. Poderia se dizer que a mitologia também desempenha um papel de construção e solidificação dos laços sociais entre os membros de um grupo. É assim no mito de Édipo.  Narrado em sua época, dentre outros propósitos, para coibir o incesto. Sabedor da sorte desventurada que recai sobre o seu agente quem ainda ousaria praticá-lo?

Há vários mitos que se aplicam ao presente e às relações sociais que contraimos nos mais variados espaços que frequentamos. De modo particular gostaria de conferir breve atenção a um personagem da mitologia grega chamado Procusto.

Procusto vive em uma floresta, mas não se preocupem os mateiros e os ambientalistas. Sua diversão existencial não é abrir clareiras na mata, mas consiste em atrair os que por ali passam e capturá-los. É aqui que a história, ou melhor, o mito fica contundente. Ao capturar a vítima Procusto amarra-a em sua cama. Sugestivo? Aqueles infelizes que possuem tamanho maior que o da cama têm, então, parte de suas pernas amputadas pelo monstro mitológico. Aqueles, porém, que são menores que a cama são a esta amarrados e esticados até ficarem com um tamanho ideal. Observem que, nas duas situações, o modelo ideal é definido pela compleição e pela estatura do próprio Procusto.

A respeito deste mito Marcos Bagno escreveu, em certa ocasião, que o personagem de Procusto simboliza a intolerância humana frente ao desafio diário de viver com o outro. Prato cheio para a Antropologia Cultural. No entanto, gostaria apenas de frisar esta leitura de Bagno a propósito de uma ação humana no campo da educação - a administração. Quem é Procusto?

Olhando para o cenário educacional Procusto simboliza a incapacidade de lidar com a opinião contrária. Sua cama é o leito ideal de um projeto educacional que tem na sua base uma administração de tipo burocratizada e um discurso "democrático" embolado pró-qualidade. Tal projeto não está aberto à construção, ao diálogo, à contestação de suas bases científicas, antropológicas e axiológicas. Procusto é toda administração de natureza centralizada e corporativista, o que configura respectivamente o próprio modo de ser do Estado Moderno e da administração dos setores públicos estatais, dentre os quais se inserem as instituições públicas de educação.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Para palitar os dentes

As normas e os valores morais não são universais, assim como também não há um princípio ético universal. As normas morais se circunscrevem na esfera supraestrutural das relações simbólicas que funcionam como um cristalizador das ações estruturais ocorridas na esfera das relações de produção material da existência humana.
A compreensão histórica da origem e da mudança das normas, valores e costumes morais rompe com a tentação de uma infértil idealização do comportamento humano.
As tirinhas, abaixo indicadas, são extraídas do sítio /www.malvados.com.br/. Dentre outros fatores, elas expressam uma paralização do juízo avaliativo humano frente a velocidade com que os valores tem sido alterados na atualidade e denotam, ainda, uma certa insensibilidade para a percepção  dos condicionantes materiais de tais valores. Cabe-nos "apenas" descobrir-lhes a motivação intrínseca e não latente.


 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ave! Obama. Ave! Mídia

O que a família Obama veio fazer no Brasil?

Assistindo aos telejornais poderia conceber que uma resposta para esta questão quase foi digna de um tratamento metafísico.

De "cara" eliminei a hipótese de que a simpática família teria se preparado para assistir ao carnaval carioca e, no entanto, o casal teria chegado ao país um pouco tarde graças ao tempo que a Primeira Dama gastara para se produzir. Também me pareceu difícil supor que a família teria vindo para a Copa do Mundo de Futebol (2014) ou para os Jogos Olímpicos (2016) - eles já sabem em qual competição os EUA se darão mellhor.

Também não creio que o presidente Norte-Americano tenha vindo ao Brasil apenas para ordenar o início dos ataques à Líbia; parece pouco elegante a um presidente de imagem sorridente e simpática interromper o diálogo com o anfitrião para propor uma ação de violência, além do mais tal decisão poderia ser tomada desde a Casa Branca.

De tudo o que vi e ouvi nos telejornais não pude saber nitidamente sobre os propósitos da visita dos Obama ao Brasil. O que vi na realidade foi uma mídia ultra-liberal subserviente à figura do presidente do "país mais poderoso" do mundo que, pelo que entendi do discurso servil, veio ao Brasil resgatar o elo fraturado entre os dois países durante a administração do governo Lula (Celso Amorim & Itamaraty).

Do que vi e ouvi jamais poderia supor que os EUA vivenciam, na atualidade, uma crise econômica delicada impulsionada, em parte, pelo modelo político-econômico que empurraram ao Brasil "goela abaixo" durante a década de 1990; não poderia ainda imaginar que Obama não tem respaldo político - base política - no Congresso de seu país; não poderia também conceber que, no campo bélico, estamos vivenciando a uma nova forma de colonização dos países de economia periférica que consiste na retaliação de suas fontes de energia (Iraque; Afeganistão e agora Líbia - com tentativa fracassada no caso do Irã, até o momento) conduzida pelo Tio Sam.

Acho que preciso assistir menos aos telejornais, pois me pareceu que os Obama vieram ao Brasil somente para uma visita de cortesia.