domingo, 24 de outubro de 2010

Condições de trabalho no modelo produtivo toyotista

Reproduzo texto do amigo Milton Saito, publicado no blog do Saito e da Cristiane Nagafuti. O texto é um retrato fidedigno das condições de trabalho do operário da indústria toyotista japonesa e problematiza o sonho de realização pessoal, étnica e financeira dos brasileiros que trabalham no Japão.

Milton é licenciado, bacharel e mestre em Gegrafia pela UNESP, campus de Presidente Prudente. Atuou como jornalista no interior paulista e na atualidade vive e trabalha no Japão. Cristiane trabalhou como colunista do jornal Oeste Notícias de Presidente Prudente.


Japão: a competitividade e estresse afetam brasileiros nas fábricas

Escrito por Saito e Cristiane Nagafuti
16/10/2010 às 00:09:18


Trabalhador sofre uma mistura perigosa de problemas físicos e psíquicos

*Por Milton Saito

O mercado de trabalho continua instável no Japão. Há setores e regiões onde acontecem demissões e em outras contratações. Mas, quem consegue emprego enfrenta novas dinâmicas de situações, dentre tais, salários reduzidos e velocidade e volume maior de trabalho.

A consequência disso tudo é que para acumular iene e/ou sobreviver os brasileiros se tornam mais cotidianamente competitivos e estressados. E essa forma de comportamento pode afetá-lo não apenas no trabalho, e sim no âmbito familiar e social.

Desde o momento da contratação até a forma de gestar as atividades na fábrica, novas exigências passaram a fazer parte deste cenário. Carro próprio, por exemplo, com intuito de eliminar custo no transporte para a empresa contratante, moradia por conta própria que retira da empresa a condição de fiadora, domínio do idioma e perfil como idade, são algumas das novas condições.

Na gestão do trabalho, a pressão dos chefes inicia-se no começo do dia onde são estabelecidas metas produtivas, conforme prevê o modo de produção hoje hegemônico no país, o Toyotismo. Mudança de seção no decorrer do dia e horas extras necessárias para cumprir as metas são condições diárias.

Neste contexto, a saúde do trabalhador sofre uma mistura perigosa de problemas físicos e psíquicos. Enquanto na ativa, quase que não se percebe tais males. É que as intensas jornadas diárias limitam o tempo até para que pensem em si. Ou seja, é a extensão do taylorismo - trabalho por meio da medição de tempo – que passa invadir também a vida pessoal. A pergunta que fica é: até quando isso vale à pena?

Como existe uma tendência de fixação dos brasileiros no país, a comunidade quase não encontra portas abertas também para a educação dos filhos, dentre outras perspectivas que possam despertar o sentido de brasilidade. Também é limitada a inserção dos indivíduos na estrutura de sociedade japonesa. Outro lado da competitividade que reduz a participação para os estrangeiros.

O fio de linha deste novelo ganha maior complexidade com o passar do tempo. Afasta-se da realidade do Brasil. Ou seja, percebe-se uma tendência de perversão de valores, prática cidadã, que pode agravar ainda mais a saúde, o senso de cidadania e tornar ainda mais desumano as relações familiares e sociais de cada um.

Portanto, é preciso deixar claro que, saúde física e mental em equilíbrio não tem preço. Se o preço pago por estes desvios de conduta permanecer alto, está na hora de repensar até quando optar pelo dinheiro e pelo Japão como país para viver. Não está na hora de voltar?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A filosofia na formação do pedagogo

Este texto é uma coletânea de alguns apontamentos recolhidos ao longo do tempo de algumas leituras relativas a relação Filosofia e educação.

Admitimos como naturalmente importante que o futuro professor passe por um processo de formação que irá prepará-lo para a atividade docente. No entanto, não concebemos com tal naturalidade a importância da Filosofia na formação do pedagogo.

Se admitirmos que a Filosofia ocupa lugar de relevo na formação do pedagogo e se esta importância não se limita à tradição, então cabe averiguar em que medida ela (a Filosofia) é importante ao aluno do curso de pedagogia.

Quando dizemos acerca da importância da Filosofia estamos fazendo alusão ao valor desta na formação do pedagogo. Portanto, averiguar em que reside o valor da Filosofia na formação do futuro professor consiste no objetivo central deste texto.

O ponto de partida para o alcance de tal propósito reside, inicialmente, em uma compreensão dos termos axiais da relação valor da Filosofia versus formação docente, a saber: O que é Filosofia? e O que é Educação?

Para trabalhar com uma conceituação de Filosofia me aproprio de argumentos de Morente nos quais o autor classifica a Filosofia como uma ontologia e uma gnosiologia. E o que significam estes termos? O que eles nos dão a entender a respeito do que venha a ser a Filosofia?

Entendida como ontologia a Filosofia se dedica a sondar o que existe, isto é, se dedica a compreender o ser das coisas existentes. Neste sentido, a Filosofia oferta uma primeira contribuição ao aluno de pedagogia visto que a educação se constituiu em uma destas coisas que é assumida como objeto de especulação filosófica. O que é a educação? Qual é sua natureza? Em que reside sua especificidade? São algumas das questões que a Filosofia pode elencar no tratamento ontológico da educação. Tratada como uma gnosiologia a Filosofia se ocupa em averiguar como podemos conhecer o ser das coisas existentes e o que podemos conhecer a este respeito. Neste tocante, poderia se afirmar que, dentre outros fatores, a Filosofia contribui para uma averiguação dos fundamentos teóricos subjacentes à formação do pedagogo. A partir de qual referencial teórico e em torno de qual concepção pedagógica deveria se operar a formação do pedagogo?

Quanto à educação esta pode ser tida como prática social que perpetra uma determinada realidade social ou que rompe com um cenário social evidenciando suas contradições (ARANHA, 1996). A educação, como lugar de prolongamento de uma sociedade, deve ser o locus do inacabado, do transitório e do não permanente, segundo Gadotti (1981).

Expostos os conceitos de Filosofia e educação resta relacioná-los com a formação do pedagogo e com as contribuições da Filosofia para esta finalidade.

No tocante especificamente ao valor da Filosofia na formação do pedagogo cabe ressaltar que a Filosofia atua em três frentes basilares, quais sejam: a antropológica, a axiológica e a epistemológica (ARANHA, 1996; NISKIER, 2007).

Enquanto fundamentação antropológica da educação a Filosofia permite ao aluno de pedagogia propor-se a seguinte questão: que tipo de homem pretendo formar com minha prática educativa? Do ponto de vista dos fundamentos axiológicos da educação a Filosofia propicia ao futuro pedagogo que pense na eleição dos valores a partir dos quais pretenderá formar seu aluno. Por fim, quanto à fundamentação epistemológica a Filosofia contribui para a formação do pedagogo na medida em que o conduz a compreender que a formação do homem, em torno de valores e finalidades específicas, somente se processará de forma sistemática e coerente tendo como suporte uma teoria crítica.

Neste ponto podemos retomar o conceito de educação anteriormente exposto. Concebida como prática social a educação trará à tona as contradições sociais quando tenha, a sua frente, um pedagogo/formador capaz de romper com o senso comum pedagógico (LUCKESI, 1992). Esta ruptura, no entanto, só é possível quando o professor adquirir a habitualidade de filosofar sobre a sua ação pedagógica (LUCKESI, 1992; SAVIANI, 2000) e esta aquisição ocorre na medida em que o educador se torna sensível aos problemas filosóficos que a realidade educacional apresenta.

Em suma, o valor da Filosofia na formação do pedagogo reside no fato de que esta, de forma especulativa, confere ao aluno condições de pensar sistematicamente sobre os problemas educacionais (NISKIER, 2001; SAVIANI, 2000). De maneira prescritiva a Filosofia ajuda o aluno, futuro pedagogo, a estabelecer os padrões valorativos de sua prática pedagógica. Por fim, no aspecto crítico a Filosofia conduz o aluno de pedagogia à análise do significado das palavras impedindo o uso impróprio dos termos (NISKIER, 2001) e faz ainda com que o aluno seja capaz de avaliar a finalidade cumprida pela educação em uma sociedade de classes desvendando assim, conscientemente, os seus determinantes estruturais e suas intenções políticas (SAVIANI, 2000).

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia Arruda. Filosofia da Educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996.
GADOTTI, Moacir. A educação contra a educação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1992.
MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia: lições preliminares. (s/ed., s/d)
NISKIER, Arnaldo. Filosofia da Educação: uma visão crítica. São Paulo: Loyola, 2001.
SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência Filosófica. 13. ed. Campinas: Autores Associados, 2000.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

No segundo turno: Votem em meu pai!

Assisti, no último domingo, ao debate entre os presidenciáveis, transmitido pela Rede TV. Não gostaria de destacar a insegurança do apresentador, mas já vi vara verde tremer menos.

O que gostaria de frisar é uma impressão que o debate me causou durante o seu transcurso. Foram fartas as afirmações de ambas as partes quanto a ignorância do rival no tocante às mais variadas informações ali apresentadas. Não faltaram observações do tipo:

"- Me perdoe o candidato, mas o que o senhor não sabe é..."
"- A candidata está mal informada a respeito..."
"- O candidato ignora que..."
"- A senhora não tem conhecimento de que..."
"- Mais uma vez o candidato demonstrou que desconhece..."

Não tendo a pretensão de fazer uma análise do discurso dos candidatos e nem se importando com o aprisionamento ideológico de certas falas presentes no debate, o eleitor poderá conceber que no páreo pela presidência estão dois candidatos quase ignorantes.

Atentando-se para as falas, no entanto, é possível perceber que o candidato Serra sustenta um discurso acentuadamente empolado. Em vários momentos o candidato sequer conseguiu elaborar a questão a ser respondida por Dilma. Sem falar que, ao censurar os fatos políticos privatistas apresentados por Dilma relativos à natureza administrativa dos governos FHC e Serra, o candidato do PSDB demostrou uma tônica perversa de seu discurso que se recusa a exergar a história dialéticamente.

Evidentemente não são candidatos ignorantes, mas a estrutura demagógica do debate me faz acreditar que meu sincero pai saberia mais que os presidenciáveis.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Regular para ajustar

O dicionário Aurélio - on-line - define "regular" como aquilo que existe conforme as regras, às leis, às praxes e à natureza. Já "ajustar" é definido como sinônimo de adaptar.

Nos aparelhos televisores mais antigos existia um dispositivo que rodado para um lado ou para outro regulava a imagem da TV quando esta se apresentava com chuviscos. Nos aparelhos mais recentes, com os dispositivos digitais, o ato de "regular a imagem" foi substituido pela cômoda atitude de "ajustar a sintonia".

O que ocorreu com a imagem transmitida pela TV? Um avanço técnico, poderíamos dizer. Na atualidade não é mais necessário regular a imagem televisiva, mas apenas (quando muito) ajustá-la. A tecnologia de emissão/transmissão e captação de sinal já se encontra regulada (para não dizer desenvolvida) o suficiente ao ponto de ser necessário apenas umas pequenas adaptações, para mais ou para menos, na tela do visor quando se pretende uma imagem com maior ou menor claridade. No geral, as opções de ajuste de imagem já estão dadas, isto é, reguladas. O máximo que posso é combinar, dentro dos limites das opções, algumas variações de ajustes.

Guardadas as comparações poderia se fazer a mesma inferência quanto ao comportamento social e político reinante hodiernamente. Parece não ser mais necessário grandes ações reformadoras, por parte do poder instituído, que tenham um propósito regulador do comportamento social. Bastam pequenas iniciativas ou programas políticos paliativos que tratam de ajustar as condutas às demandas de um projeto societário outrora constituído e contra o qual se insiste em dizer que não há alternativas.

E o que a TV tem a ver com isto?

Nas duas últimas décadas uma série de programas televisos, exibidos em canais abertos, tem assumido um formato denominado interativo. Tais programas, nos mais variados gêneros, adotaram a tática de cooptação do comportamento e do gosto do telespectador dando-lhe a ilusão de que participa ativamente da programação da Emissora X ao telefonar, a um custo módico, para decidir entre a bunda e/ou o músculo que deverá permanecer entretendo a vida.

A "interação" é, na realidade, uma tática adaptadora do gosto do freguês que pensa ser artíficie da história e do programa. A adaptação, no entanto, só é possível em face da existência prévia de um comportamento valorativo já regulado à aceitação de programas de consumo de futilidades da vida privada: é assim com as telenovelas - não há uma história a ser contata, com os reality show, com os telejornais, com os programas de entrevista das celebridades, com os discursos dos candidatos políticos e até com os programas de humor - vide Pânico na TV.

Regulado o telespectador não percebe que a sua participação não é a de quem está decidindo o formato ou o texto do programa televisivo. Sua ação é a de quem engrossa estatísticas que irão "ranquiar" os programas televisivos. A mesma intensidade com que se interage com os programas de TV é, por sua vez, encontrada no cenário político-social. "Alô! É da justiça? Eu gostaria de informar um corpo lá no chão."

Tendo sido regulada a vida social e política em torno dos princípios de uma sociedade dos direitos - legalista - basta ao sujeito moderno recorrer a um órgão de proteção para que se ajuste a conduta do fulano às normativas prescritas.