sábado, 29 de maio de 2010

Lunissagem

Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar.
(Zé do Norte/Zé Martins)

Se asas tivesse ao céu voaria para te descolonizar, orbitaria em seu brilho e pousaria no explendor de sua face fazendo refulgir meu bem-querer.
Então, se fitasses os meus olhos, iluminar-te-ia o lado escuro.
E, se indiferente não fosses ao meu querer, desviarias sua trajetória para colidir com meu coração. Assim, abrigar-te-ia das pegadas dos exploradores, dos lunáticos meteoros e da inveja eclipsante do astro rei.
Se entendesses minha angústia, expulsarias de seu interior São Jorge e cavalo para um outro ancoradouro.
Somente assim, meu amor cabo daria daquele dragão que do céu te consome noite e dia, de tempos em tempos, aumentando sem acalento meu sofrimento.
Se na velocidade da luz eu viajasse pelo universo te levaria, numa ida sem fim, para sempre ao seu lado ficar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Frankenstein vai à academia

Do século XVII a meados do Século XX a razão constituiu-se no núcleo ordenador da identidade do sujeito moderno. Em torno dela este sujeito estruturou-se sustentando utopias políticas, afirmando a ciência e estabelecendo ideais revolucionários.
Na contemporaneidade nada disto parece caracterizar o indivíduo denominado pós-moderno, cuja identidade é tênue, fragmentada e alienada.
Em lugar da submissão de sua existência ao coletivo o indivíduo pós-moderno preocupa-se em demasia com sua existência particular e com suas necessidades pessoais. Estas se constituem, na atualidade, no novo núcleo ordenador da identidade humana. Neste tocante, o indivíduo pós-moderno é aquele que aspira, com todas suas forças, à personalização da política, da religião, da moral, do amor e da estética.
"Ensimesmado" e centrado num "para si mesmo" este indivíduo relega o amor e absolutiza a paixão. Para ele o amor indica - na figura do objeto amado - a perenidade das relações, a aceitação e o convívio com uma constituição física e estética distinta e, por isso mesmo, incompatível com o presente, visto que este demandaria relações mais dinâmicas e centradas na "química" do momento, para não dizer fugazes.
Assim, mergulhado na paixão o indivíduo pós-moderno procura personalizar o "objeto amado". Inicialmente isto é possível procurando no outro aquilo que ele ainda não tem ou ainda não é e gostaria de ter e ser. Então, o outro "é" enquanto existe para a sua realização. Posteriormente, a personalização do "objeto amado" se acentua no cultivo de um corpo com dimensões e proporções plásticas requisitadas, sob medida, pelo agente - pós-moderno - da paixão.
Na contemporaneidade amar é verbo cada vez menos conjugado/praticado. Isto é compreensível, como afirmado anteriormente, uma vez que o indivíduo pós-moderno estabelece com o outro relações formatadas pela necessidade de personalização do objeto desejado. É neste sentido que objetiva fixar a sua identidade ao lançar-se à procura de uma forma física ideal, seja em academias de ginástica, seja por meio de cirurgias plásticas.
Na paixão não se procura o conteúdo do objeto "amado", mas tão somente uma imagem/beleza fetichizada. Enquanto o amor açambarca a paixão e a extrapola, nesta última perdura o fascínio sobre o outro. Formatado psiquicamente o indivíduo pós-moderno aceita o outro somente na medida em que corresponda aos seus desejos pessoais: insere um seio aqui, um músculo ali, tira uma gordurinha daqui, injeta um botox lá... Pronto! O indivíduo pós-moderno pode dar umas aulinhas ao criador de Frankenstein. Frankenstein não assusta devido seu lado monstruoso, mas pelo fato de que foge ao controle de seu criador quando se percebe uma aberração.