domingo, 28 de março de 2010

Quero ver é na prática!

“Na teoria é uma coisa, na prática é outra”.
“Eu quero ver na prática”.
“Na teoria é bonito, mas ‘vai’ na prática ‘pra’ ver”.

Não são raras as frases proferidas pelos alunos, em sala de aula, em tom de indignação quanto à extensão prática dos conhecimentos e informações com os quais entram em contato ao longo de um curso de graduação.

Creio mesmo que o tom não é de indignação, mas de uma relativa incompreensão quanto à relação existente entre teoria e prática. Ao ingressar no ensino superior os alunos, em sua imensa maioria, vivenciam uma imersão em um universo valorativo do real que é pragmático-ideologizado. Nesta acepção, o critério axiológico por excelência reside no saber fazer, em detrimento do saber o que é o ser das coisas e do saber a conhecer como fazer.

Ao que parece, pesa sobre os alunos, inicialmente, a não compreensão de que as ações humanas são indissociavelmente de dois tipos: práticas e teóricas. A dissociação destas tipagens tende a conduzir ao embrutecimento da ação humana criadora e transformadora. Separar estes dois tipos de ações é o mesmo que hierarquizá-las, conferido maior grau de importância ora a uma (“saber é poder”) ora a outra (“faça o que eu faço, mas não faça o que eu digo”).

A formação universitária é o momento privilegiado do exercício da prática teórica de uma dada realidade. Em contrapartida, a formação esvaziada de suporte referencial teórico tende a pautar perfis profissionais estribados no gosto dos acontecimentos; isto é, no imediatismo e no senso comum. Basta intuir e pronto! Por sua vez, a formação teórica não referenciada na prática tende a tornar-se blá-blá-blá, retórica e distanciada do mundo.

A teoria é um tipo de ação cuja função é a sustentação de uma prática. E a prática, fazendo alusão ao educador Paulo Freire, na medida em que vai ocorrendo, reformula a teoria.

Assim, antes de se constituírem em realidades díspares teoria e prática vivem uma relação dialética e não dual. Sua fragmentação somente interessa àquele espírito acadêmico que ainda não desenvolveu um contingente de leitura capaz de conduzí-lo à percepção de que a negação da importância da formação universitária teórica contribui para legitimar uma sociedade fraturada, uma vez que tende a valorizar o trabalho intelectual e a relegar a importância do trabalho vivo.

É esta fratura que impede a formação integral do aluno/trabalhador. Desta feita, os bancos universitários estão permeados de acadêmicos socialmente instruídos para serem sedentos por receituários técnicos e impacientes com a necessidade de elaboração do conceito, com a compreensão dos fundamentos de um argumento e com o exercício meticuloso de reformulação de uma tese. Tais alunos são vítimas de uma leitura de mundo distorcida que lhes apresenta a razão discursiva como exercício inoperante face à supremacia da razão instrumental. Daí, as afirmações expressas no início deste post e a "clássica" sentença: "quero ver é na prática, professor"

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Felícit-as, átis"

Nominativo - a felicidade (felícitas);
Genitivo - da felicidade (felicitátis).

É bom manter o título em latim, pois assim os romanos e os gauleses poderão encontrar este artigo em um sítio de busca qualquer, arqueológico talvez.
Felicidade! Feliz é Félix. A ausência da felicidade é sempre tristeza? Como a história ocidental concebe a felicidade?
Para os gregos clássicos, inventores da razão como princípio ordenador do conhecimento e disciplinador da ignorância, a felicidade era tida como uma questão política. Ser feliz significava o mesmo que fazer bom uso dos prazeres. Não nos iludamos; o prazer supremo estava em operar o bem comum.
Com o advento do cristianismo e sua predominância durante a Idade Média, a felicidade passa a significar o mesmo que abstenção dos prazeres. O corpo e seus prazeres são fontes de pecado.
Na contemporaneidade, substituindo a filosofia e a religião, a propaganda midiática desobstruiu a felicidade da arena da razão e a destronizou do altar da fé. A propaganda, segundo Ricardo Goldenberg - psicanalista, encontra um modo UNIVERSAL de satisfazer a todos. A esta satisfação, pouco perene, é que se atribui o nome de felicidade. Felicidade tão volátil quanto o cheiro do estofado de um carro "zero" e tão fútil quanto a inércia do olhar diante de uma imagem/tela HD big, macro, plus, hiper polegadas.
A felicidade não diz respeito aos espaços públicos de debates e decisões quanto a vida da pólis, também não se relaciona com a busca espiritual supra-sensível. A felicidade é imediata e sua base é a volição automatizada de prazeres irreprimíveis que, em boa parte dos casos, satisfazem somente seu próprio genitor. Todos somos felizes, basta sonhar. Para tanto, não é mais preciso alimentar utopias - a exemplo da democracia grega ou do paraíso cristão - basta vidrar os olhos e mirá-los na "caixinha de imagens", pois o deus "mass média" a tudo e a todos proverá. Não há espírito no qual esteja ausente a felicidade e a tristeza seja seu senhor. Há, em contrapartida, um espírito materializado que consome simulacros da felicidade. Este estado do ser não é permeado pela tristeza, mas pela ignorância.