terça-feira, 30 de novembro de 2010

Começou a Copa do Mundo de 2014

Enfim, o Estado chegou ao morro. A bandeira brasileira "fincada" no alto do morro parece-me a mais nítida imagem da histórica ausência das políticas estatais para as populações faveladas.

A ação policial nos morros cariocas, na semana passada, demonstra que o poder das exigências da FIFA não se limita à (re)estruturação dos estádios de futebol. O padrão FIFA extingue dos estádios a famosa "geral", massivamente frequentada pelo "povão" comprimido e acotovelado.

Curiosamente, para garantir que o povão não queira ocupar as arquibancadas reservadas a um público mais apresentável às imagens televisivas urge, enfim, ocupar o morro com cartão de visita e tudo o mais: "há duas opções: render-se ou ir para o cemitério". É curioso também que o primeiro "serviço social" e que a primeira "ação estrutral" que, durante muito tempo, o Estado tenha ofertado ao jovem favelado/traficante(?) tenha sido o serviço funerário.

E o Estado lá permanecerá, enquartelado nas UPPs. E as demais ações políticas, culturais, estruturais/emprego etc? Não é de se duvidar que estas serão encabeçadas pelo ONGuismo. Já imagino uma série de ONGs faturando com a organização de passeios dos gringos aos morros cariocas durante a Copa do Mundo e durante a realização dos Jogos Olímpicos e Para-Olímpicos. Da forma como estava não dava para o capital (divisas do turismo da miséria) aportar no morro.

Como prêmio ao esforço, pragmático-utilitarista, do Estado bem que a FIFA já poderia declarar o Brasil hexa campeão mundial de futebol.

domingo, 24 de outubro de 2010

Condições de trabalho no modelo produtivo toyotista

Reproduzo texto do amigo Milton Saito, publicado no blog do Saito e da Cristiane Nagafuti. O texto é um retrato fidedigno das condições de trabalho do operário da indústria toyotista japonesa e problematiza o sonho de realização pessoal, étnica e financeira dos brasileiros que trabalham no Japão.

Milton é licenciado, bacharel e mestre em Gegrafia pela UNESP, campus de Presidente Prudente. Atuou como jornalista no interior paulista e na atualidade vive e trabalha no Japão. Cristiane trabalhou como colunista do jornal Oeste Notícias de Presidente Prudente.


Japão: a competitividade e estresse afetam brasileiros nas fábricas

Escrito por Saito e Cristiane Nagafuti
16/10/2010 às 00:09:18


Trabalhador sofre uma mistura perigosa de problemas físicos e psíquicos

*Por Milton Saito

O mercado de trabalho continua instável no Japão. Há setores e regiões onde acontecem demissões e em outras contratações. Mas, quem consegue emprego enfrenta novas dinâmicas de situações, dentre tais, salários reduzidos e velocidade e volume maior de trabalho.

A consequência disso tudo é que para acumular iene e/ou sobreviver os brasileiros se tornam mais cotidianamente competitivos e estressados. E essa forma de comportamento pode afetá-lo não apenas no trabalho, e sim no âmbito familiar e social.

Desde o momento da contratação até a forma de gestar as atividades na fábrica, novas exigências passaram a fazer parte deste cenário. Carro próprio, por exemplo, com intuito de eliminar custo no transporte para a empresa contratante, moradia por conta própria que retira da empresa a condição de fiadora, domínio do idioma e perfil como idade, são algumas das novas condições.

Na gestão do trabalho, a pressão dos chefes inicia-se no começo do dia onde são estabelecidas metas produtivas, conforme prevê o modo de produção hoje hegemônico no país, o Toyotismo. Mudança de seção no decorrer do dia e horas extras necessárias para cumprir as metas são condições diárias.

Neste contexto, a saúde do trabalhador sofre uma mistura perigosa de problemas físicos e psíquicos. Enquanto na ativa, quase que não se percebe tais males. É que as intensas jornadas diárias limitam o tempo até para que pensem em si. Ou seja, é a extensão do taylorismo - trabalho por meio da medição de tempo – que passa invadir também a vida pessoal. A pergunta que fica é: até quando isso vale à pena?

Como existe uma tendência de fixação dos brasileiros no país, a comunidade quase não encontra portas abertas também para a educação dos filhos, dentre outras perspectivas que possam despertar o sentido de brasilidade. Também é limitada a inserção dos indivíduos na estrutura de sociedade japonesa. Outro lado da competitividade que reduz a participação para os estrangeiros.

O fio de linha deste novelo ganha maior complexidade com o passar do tempo. Afasta-se da realidade do Brasil. Ou seja, percebe-se uma tendência de perversão de valores, prática cidadã, que pode agravar ainda mais a saúde, o senso de cidadania e tornar ainda mais desumano as relações familiares e sociais de cada um.

Portanto, é preciso deixar claro que, saúde física e mental em equilíbrio não tem preço. Se o preço pago por estes desvios de conduta permanecer alto, está na hora de repensar até quando optar pelo dinheiro e pelo Japão como país para viver. Não está na hora de voltar?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A filosofia na formação do pedagogo

Este texto é uma coletânea de alguns apontamentos recolhidos ao longo do tempo de algumas leituras relativas a relação Filosofia e educação.

Admitimos como naturalmente importante que o futuro professor passe por um processo de formação que irá prepará-lo para a atividade docente. No entanto, não concebemos com tal naturalidade a importância da Filosofia na formação do pedagogo.

Se admitirmos que a Filosofia ocupa lugar de relevo na formação do pedagogo e se esta importância não se limita à tradição, então cabe averiguar em que medida ela (a Filosofia) é importante ao aluno do curso de pedagogia.

Quando dizemos acerca da importância da Filosofia estamos fazendo alusão ao valor desta na formação do pedagogo. Portanto, averiguar em que reside o valor da Filosofia na formação do futuro professor consiste no objetivo central deste texto.

O ponto de partida para o alcance de tal propósito reside, inicialmente, em uma compreensão dos termos axiais da relação valor da Filosofia versus formação docente, a saber: O que é Filosofia? e O que é Educação?

Para trabalhar com uma conceituação de Filosofia me aproprio de argumentos de Morente nos quais o autor classifica a Filosofia como uma ontologia e uma gnosiologia. E o que significam estes termos? O que eles nos dão a entender a respeito do que venha a ser a Filosofia?

Entendida como ontologia a Filosofia se dedica a sondar o que existe, isto é, se dedica a compreender o ser das coisas existentes. Neste sentido, a Filosofia oferta uma primeira contribuição ao aluno de pedagogia visto que a educação se constituiu em uma destas coisas que é assumida como objeto de especulação filosófica. O que é a educação? Qual é sua natureza? Em que reside sua especificidade? São algumas das questões que a Filosofia pode elencar no tratamento ontológico da educação. Tratada como uma gnosiologia a Filosofia se ocupa em averiguar como podemos conhecer o ser das coisas existentes e o que podemos conhecer a este respeito. Neste tocante, poderia se afirmar que, dentre outros fatores, a Filosofia contribui para uma averiguação dos fundamentos teóricos subjacentes à formação do pedagogo. A partir de qual referencial teórico e em torno de qual concepção pedagógica deveria se operar a formação do pedagogo?

Quanto à educação esta pode ser tida como prática social que perpetra uma determinada realidade social ou que rompe com um cenário social evidenciando suas contradições (ARANHA, 1996). A educação, como lugar de prolongamento de uma sociedade, deve ser o locus do inacabado, do transitório e do não permanente, segundo Gadotti (1981).

Expostos os conceitos de Filosofia e educação resta relacioná-los com a formação do pedagogo e com as contribuições da Filosofia para esta finalidade.

No tocante especificamente ao valor da Filosofia na formação do pedagogo cabe ressaltar que a Filosofia atua em três frentes basilares, quais sejam: a antropológica, a axiológica e a epistemológica (ARANHA, 1996; NISKIER, 2007).

Enquanto fundamentação antropológica da educação a Filosofia permite ao aluno de pedagogia propor-se a seguinte questão: que tipo de homem pretendo formar com minha prática educativa? Do ponto de vista dos fundamentos axiológicos da educação a Filosofia propicia ao futuro pedagogo que pense na eleição dos valores a partir dos quais pretenderá formar seu aluno. Por fim, quanto à fundamentação epistemológica a Filosofia contribui para a formação do pedagogo na medida em que o conduz a compreender que a formação do homem, em torno de valores e finalidades específicas, somente se processará de forma sistemática e coerente tendo como suporte uma teoria crítica.

Neste ponto podemos retomar o conceito de educação anteriormente exposto. Concebida como prática social a educação trará à tona as contradições sociais quando tenha, a sua frente, um pedagogo/formador capaz de romper com o senso comum pedagógico (LUCKESI, 1992). Esta ruptura, no entanto, só é possível quando o professor adquirir a habitualidade de filosofar sobre a sua ação pedagógica (LUCKESI, 1992; SAVIANI, 2000) e esta aquisição ocorre na medida em que o educador se torna sensível aos problemas filosóficos que a realidade educacional apresenta.

Em suma, o valor da Filosofia na formação do pedagogo reside no fato de que esta, de forma especulativa, confere ao aluno condições de pensar sistematicamente sobre os problemas educacionais (NISKIER, 2001; SAVIANI, 2000). De maneira prescritiva a Filosofia ajuda o aluno, futuro pedagogo, a estabelecer os padrões valorativos de sua prática pedagógica. Por fim, no aspecto crítico a Filosofia conduz o aluno de pedagogia à análise do significado das palavras impedindo o uso impróprio dos termos (NISKIER, 2001) e faz ainda com que o aluno seja capaz de avaliar a finalidade cumprida pela educação em uma sociedade de classes desvendando assim, conscientemente, os seus determinantes estruturais e suas intenções políticas (SAVIANI, 2000).

REFERÊNCIAS

ARANHA, Maria Lúcia Arruda. Filosofia da Educação. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996.
GADOTTI, Moacir. A educação contra a educação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1992.
MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia: lições preliminares. (s/ed., s/d)
NISKIER, Arnaldo. Filosofia da Educação: uma visão crítica. São Paulo: Loyola, 2001.
SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência Filosófica. 13. ed. Campinas: Autores Associados, 2000.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

No segundo turno: Votem em meu pai!

Assisti, no último domingo, ao debate entre os presidenciáveis, transmitido pela Rede TV. Não gostaria de destacar a insegurança do apresentador, mas já vi vara verde tremer menos.

O que gostaria de frisar é uma impressão que o debate me causou durante o seu transcurso. Foram fartas as afirmações de ambas as partes quanto a ignorância do rival no tocante às mais variadas informações ali apresentadas. Não faltaram observações do tipo:

"- Me perdoe o candidato, mas o que o senhor não sabe é..."
"- A candidata está mal informada a respeito..."
"- O candidato ignora que..."
"- A senhora não tem conhecimento de que..."
"- Mais uma vez o candidato demonstrou que desconhece..."

Não tendo a pretensão de fazer uma análise do discurso dos candidatos e nem se importando com o aprisionamento ideológico de certas falas presentes no debate, o eleitor poderá conceber que no páreo pela presidência estão dois candidatos quase ignorantes.

Atentando-se para as falas, no entanto, é possível perceber que o candidato Serra sustenta um discurso acentuadamente empolado. Em vários momentos o candidato sequer conseguiu elaborar a questão a ser respondida por Dilma. Sem falar que, ao censurar os fatos políticos privatistas apresentados por Dilma relativos à natureza administrativa dos governos FHC e Serra, o candidato do PSDB demostrou uma tônica perversa de seu discurso que se recusa a exergar a história dialéticamente.

Evidentemente não são candidatos ignorantes, mas a estrutura demagógica do debate me faz acreditar que meu sincero pai saberia mais que os presidenciáveis.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Regular para ajustar

O dicionário Aurélio - on-line - define "regular" como aquilo que existe conforme as regras, às leis, às praxes e à natureza. Já "ajustar" é definido como sinônimo de adaptar.

Nos aparelhos televisores mais antigos existia um dispositivo que rodado para um lado ou para outro regulava a imagem da TV quando esta se apresentava com chuviscos. Nos aparelhos mais recentes, com os dispositivos digitais, o ato de "regular a imagem" foi substituido pela cômoda atitude de "ajustar a sintonia".

O que ocorreu com a imagem transmitida pela TV? Um avanço técnico, poderíamos dizer. Na atualidade não é mais necessário regular a imagem televisiva, mas apenas (quando muito) ajustá-la. A tecnologia de emissão/transmissão e captação de sinal já se encontra regulada (para não dizer desenvolvida) o suficiente ao ponto de ser necessário apenas umas pequenas adaptações, para mais ou para menos, na tela do visor quando se pretende uma imagem com maior ou menor claridade. No geral, as opções de ajuste de imagem já estão dadas, isto é, reguladas. O máximo que posso é combinar, dentro dos limites das opções, algumas variações de ajustes.

Guardadas as comparações poderia se fazer a mesma inferência quanto ao comportamento social e político reinante hodiernamente. Parece não ser mais necessário grandes ações reformadoras, por parte do poder instituído, que tenham um propósito regulador do comportamento social. Bastam pequenas iniciativas ou programas políticos paliativos que tratam de ajustar as condutas às demandas de um projeto societário outrora constituído e contra o qual se insiste em dizer que não há alternativas.

E o que a TV tem a ver com isto?

Nas duas últimas décadas uma série de programas televisos, exibidos em canais abertos, tem assumido um formato denominado interativo. Tais programas, nos mais variados gêneros, adotaram a tática de cooptação do comportamento e do gosto do telespectador dando-lhe a ilusão de que participa ativamente da programação da Emissora X ao telefonar, a um custo módico, para decidir entre a bunda e/ou o músculo que deverá permanecer entretendo a vida.

A "interação" é, na realidade, uma tática adaptadora do gosto do freguês que pensa ser artíficie da história e do programa. A adaptação, no entanto, só é possível em face da existência prévia de um comportamento valorativo já regulado à aceitação de programas de consumo de futilidades da vida privada: é assim com as telenovelas - não há uma história a ser contata, com os reality show, com os telejornais, com os programas de entrevista das celebridades, com os discursos dos candidatos políticos e até com os programas de humor - vide Pânico na TV.

Regulado o telespectador não percebe que a sua participação não é a de quem está decidindo o formato ou o texto do programa televisivo. Sua ação é a de quem engrossa estatísticas que irão "ranquiar" os programas televisivos. A mesma intensidade com que se interage com os programas de TV é, por sua vez, encontrada no cenário político-social. "Alô! É da justiça? Eu gostaria de informar um corpo lá no chão."

Tendo sido regulada a vida social e política em torno dos princípios de uma sociedade dos direitos - legalista - basta ao sujeito moderno recorrer a um órgão de proteção para que se ajuste a conduta do fulano às normativas prescritas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Votem em meu pai!

Assistindo, com muito custo, às propagandas eleitorais tomei mais conhecimento de detalhes e fatos da vida privada dos principais candidatos do que propriamente de seus projetos de governo.
Fiquei cá pensando a que se deve este tipo de propaganda que valoriza acentuadamente as "dificuldades" sócio-econômicas do candidato antes deste se tornar um político de carreira?
Hum! Talvez tenhamos que normatizar a campanha eleitoral. Que tal invocar a ABNT? Esta poderia estabelecer uma normativa para os panfletos impressos de campanha prevendo o que deve/pode ser comunicado (programas de: educação; saúde, saneamento básico, segurança, desenvolvimento econômico etc) e como deve ser comunicado. Seríamos poupados de um amontado de santinhos que insistem em sacralizar a caixa de correspondência de nossas casas com um rol de promessas partidárias.
E toda a campanha midiática deveria ser, tão somente, uma exposiação, explicação e conferência sobre as propostas de governo registradas em órgão competente e normatizadas pela ABNT.
Falar das "dificuldades" pessoais, da infância pobre e humilde, do pam-pam-pam, da caixinha de fósforos e do escambal de bico soa um engodo político. Caso assim continue peço aos eleitores que, nas próximas eleições, votem em meu pai. Ele teve uma infância sofrida, tornou-se adulto, casou-se, teve seis filhos e sustentou-os (e ainda sustenta) trabalhando e repondo suas energias comendo muito salitre enquanto construia hidrelétricas para o país e, posteriormente, alimentando-se com bóia - mais que fria - enquanto produzia alimentos frescos para os grandes mercados.
O "sofrimento" pregresso dos candidatos não é critério objetivo e não confere confiabilidade quanto a um governo/mandato compromissado com a justiça social, com os pobres e miseráveis e com um projeto societário alternativo ao vigente.
E o Lula? Não era pobre e não fez um governo de resgate das políticas sociais? Deveras. No entanto, cadê a reforma agrária? E a reforma tributária? É claro que não se deve avaliar o atual governo apenas com base nestes dois importantes itens. Mas, se a probreza é uma condição radical de existência ou sub-existência humana quem por ela passou e hoje galga um cargo político - ou nele está - deve desenvolver igualmente ações radiciais para sanar a miséria. Ações estas que vão além do: "fui pobre um dia" (Lula e Serra) ou "hoje o pobre está comendo melhor" (FHC).

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Escola se prepara para virar motel

Bons tempos aqueles em que recebíamos, nas escolas, um copinho com fluor - após a escovação de dentes - para higienização bucal. Havia ainda até atendimento odontológico gratuito. Tenho lido na atualidade algumas matérias de jornal, ligadas à educação, que apresentam a polêmica em torno da instalação de máquinas de distribuição de camisinhas nas escolas públicas de Ensino Médio. Puxa! Como as coisas tem mudado. O governo, no entanto, não perde a 'mania' de se preocupar com a saúde dos futuros eleitores.
A iniciativa é do Programa Nacional de DST e AIDS e está estribada em dados segundo os quais jovens entre 13 (jovens?) e 19 anos possuem vida sexual ativa. "Beleza". Então, constatada a atividade sexual urge assegurar as condições preventivas para a sua saudável realização. Na escola? Opa! Então é necessário equipá-la com banheira, sauna, colchão d'água e garantir as 4 horas aula de labor/amor. Será que os Postos de Saúde passarão a ensinar noções de matemática, química, física? Educação sexual e funcionamento do metabolismo do corpo humano?
Fico pensando que poderíamos, seguindo o exemplo das máquinas de camisinhas a serem instaladas nos banheiros das escolas, instalar umas máquinas de viagra nas filas das lotéricas e das agências bancárias para atender aos bons velhinhos, constatado que estes tem tido uma vida sexual mais ativa. Poderíamos ainda instalar umas máquinas de seringas descartáveis com uma amostra grátis de pó nas praças e viadutos, uma vez constatado que estes locais são frequentados por drogados. 'Constatado' que nos morros as crianças ingressam "precocemente" no crime poderíamos, então, instalar lá umas máquinas de armas de descarga elétrica, para que os pequenos fossem treinando "tiro ao 'Álvaro', à Maria, ao João ... (sic)".
Voltando à escola: estou tentando imaginar algumas cenas com as tais máquinas de camisinhas. Os adolescentes poderão em lugar de trocar figurinhas, trocar camisinhas. Naquela festinha de aniversário, na sala de aula, não serão mais necessárias "bexigas", basta encher de ar umas duas dúzias de camisinhas e pronto: a decoração estará feita - é claro, sem aquele colorido todo dos balões. E as guerrinhas com "bexiga", ou melhor, camisinhas d'água no intervalo das aulas? Bom, pois as zeladoras terão menos trabalho, visto que não precisarão mais molhar o chão.
Hum! Quanto exagero, deve estar pensando o leitor agora. Mas, fico imaginando o que o Macaco Simão escreveria a respeito das máquinas de camisinhas. "Buemba!", "Buemba!"

sábado, 29 de maio de 2010

Lunissagem

Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar.
(Zé do Norte/Zé Martins)

Se asas tivesse ao céu voaria para te descolonizar, orbitaria em seu brilho e pousaria no explendor de sua face fazendo refulgir meu bem-querer.
Então, se fitasses os meus olhos, iluminar-te-ia o lado escuro.
E, se indiferente não fosses ao meu querer, desviarias sua trajetória para colidir com meu coração. Assim, abrigar-te-ia das pegadas dos exploradores, dos lunáticos meteoros e da inveja eclipsante do astro rei.
Se entendesses minha angústia, expulsarias de seu interior São Jorge e cavalo para um outro ancoradouro.
Somente assim, meu amor cabo daria daquele dragão que do céu te consome noite e dia, de tempos em tempos, aumentando sem acalento meu sofrimento.
Se na velocidade da luz eu viajasse pelo universo te levaria, numa ida sem fim, para sempre ao seu lado ficar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Frankenstein vai à academia

Do século XVII a meados do Século XX a razão constituiu-se no núcleo ordenador da identidade do sujeito moderno. Em torno dela este sujeito estruturou-se sustentando utopias políticas, afirmando a ciência e estabelecendo ideais revolucionários.
Na contemporaneidade nada disto parece caracterizar o indivíduo denominado pós-moderno, cuja identidade é tênue, fragmentada e alienada.
Em lugar da submissão de sua existência ao coletivo o indivíduo pós-moderno preocupa-se em demasia com sua existência particular e com suas necessidades pessoais. Estas se constituem, na atualidade, no novo núcleo ordenador da identidade humana. Neste tocante, o indivíduo pós-moderno é aquele que aspira, com todas suas forças, à personalização da política, da religião, da moral, do amor e da estética.
"Ensimesmado" e centrado num "para si mesmo" este indivíduo relega o amor e absolutiza a paixão. Para ele o amor indica - na figura do objeto amado - a perenidade das relações, a aceitação e o convívio com uma constituição física e estética distinta e, por isso mesmo, incompatível com o presente, visto que este demandaria relações mais dinâmicas e centradas na "química" do momento, para não dizer fugazes.
Assim, mergulhado na paixão o indivíduo pós-moderno procura personalizar o "objeto amado". Inicialmente isto é possível procurando no outro aquilo que ele ainda não tem ou ainda não é e gostaria de ter e ser. Então, o outro "é" enquanto existe para a sua realização. Posteriormente, a personalização do "objeto amado" se acentua no cultivo de um corpo com dimensões e proporções plásticas requisitadas, sob medida, pelo agente - pós-moderno - da paixão.
Na contemporaneidade amar é verbo cada vez menos conjugado/praticado. Isto é compreensível, como afirmado anteriormente, uma vez que o indivíduo pós-moderno estabelece com o outro relações formatadas pela necessidade de personalização do objeto desejado. É neste sentido que objetiva fixar a sua identidade ao lançar-se à procura de uma forma física ideal, seja em academias de ginástica, seja por meio de cirurgias plásticas.
Na paixão não se procura o conteúdo do objeto "amado", mas tão somente uma imagem/beleza fetichizada. Enquanto o amor açambarca a paixão e a extrapola, nesta última perdura o fascínio sobre o outro. Formatado psiquicamente o indivíduo pós-moderno aceita o outro somente na medida em que corresponda aos seus desejos pessoais: insere um seio aqui, um músculo ali, tira uma gordurinha daqui, injeta um botox lá... Pronto! O indivíduo pós-moderno pode dar umas aulinhas ao criador de Frankenstein. Frankenstein não assusta devido seu lado monstruoso, mas pelo fato de que foge ao controle de seu criador quando se percebe uma aberração.

domingo, 11 de abril de 2010

Eleições, lobos e cordeiros

A corrida presidencial está lançada. A esta altura a caixa postal de uma série de comunidades virtuais já começa a receber uma gama daquelas mensagens endereçadas, massivamente, por simpatizantes dos lobos e/ou dos cordeiros.

Assim ocorre com aquelas mensagens que se constituem em uma das estratégias da direita para atacar o governo constituído. Propositalmente tais mensagens se produzem e/ou reproduzem sob o pretexto de um tom humorístico que, em verdade, é extremamente sarcástico e raramente dotado de lucidez cognitiva crítica.

Não são poucos aqueles e-mails que atrelam a imagem do presidente da República à imagem estereotipada de um ignorante e degustador dos mesmos hábitos de Bóris Yeltsin, desprovido de condições intelectuais para o governo da nação. O mais comum deles silogisticamente estabelece um diálogo entre um pai e um filho no qual o primeiro tenta dissuadir o segundo da necessidade de estudar, uma vez que o país seria dirigido por um semi-analfabeto.

Assistindo à fragmentos da cerimônia que lançou a candidatura de Serra à presidência da República e dando-me ao luxo de ler os e-mails anti-Lula - à duras penas - creio mesmo que a aliança tucanato-DEM, amparada pela mídia liberal, ao afirmar, em palavras do governador Serra, que "o PT não é o dono do Brasil" presta um grande serviço à campanha de Dilma: seria preferível que o Brasil tivesse um dono - o populismo/lulismo petista - a ter os agentes neoliberais como proprietários da terra-brasilis?

Quem é "dono" de um país que tem parte de seus principais empreendimentos internacionalizados e suas políticas públicas sociais movidas somente sob o combustível das parcerias Estado-iniciativa privada? O "dono" deste país, como lembrou certa ocasião a Prof.ª Chauí, é o público (o lobo), mas não o estatal (o cordeiro).

domingo, 28 de março de 2010

Quero ver é na prática!

“Na teoria é uma coisa, na prática é outra”.
“Eu quero ver na prática”.
“Na teoria é bonito, mas ‘vai’ na prática ‘pra’ ver”.

Não são raras as frases proferidas pelos alunos, em sala de aula, em tom de indignação quanto à extensão prática dos conhecimentos e informações com os quais entram em contato ao longo de um curso de graduação.

Creio mesmo que o tom não é de indignação, mas de uma relativa incompreensão quanto à relação existente entre teoria e prática. Ao ingressar no ensino superior os alunos, em sua imensa maioria, vivenciam uma imersão em um universo valorativo do real que é pragmático-ideologizado. Nesta acepção, o critério axiológico por excelência reside no saber fazer, em detrimento do saber o que é o ser das coisas e do saber a conhecer como fazer.

Ao que parece, pesa sobre os alunos, inicialmente, a não compreensão de que as ações humanas são indissociavelmente de dois tipos: práticas e teóricas. A dissociação destas tipagens tende a conduzir ao embrutecimento da ação humana criadora e transformadora. Separar estes dois tipos de ações é o mesmo que hierarquizá-las, conferido maior grau de importância ora a uma (“saber é poder”) ora a outra (“faça o que eu faço, mas não faça o que eu digo”).

A formação universitária é o momento privilegiado do exercício da prática teórica de uma dada realidade. Em contrapartida, a formação esvaziada de suporte referencial teórico tende a pautar perfis profissionais estribados no gosto dos acontecimentos; isto é, no imediatismo e no senso comum. Basta intuir e pronto! Por sua vez, a formação teórica não referenciada na prática tende a tornar-se blá-blá-blá, retórica e distanciada do mundo.

A teoria é um tipo de ação cuja função é a sustentação de uma prática. E a prática, fazendo alusão ao educador Paulo Freire, na medida em que vai ocorrendo, reformula a teoria.

Assim, antes de se constituírem em realidades díspares teoria e prática vivem uma relação dialética e não dual. Sua fragmentação somente interessa àquele espírito acadêmico que ainda não desenvolveu um contingente de leitura capaz de conduzí-lo à percepção de que a negação da importância da formação universitária teórica contribui para legitimar uma sociedade fraturada, uma vez que tende a valorizar o trabalho intelectual e a relegar a importância do trabalho vivo.

É esta fratura que impede a formação integral do aluno/trabalhador. Desta feita, os bancos universitários estão permeados de acadêmicos socialmente instruídos para serem sedentos por receituários técnicos e impacientes com a necessidade de elaboração do conceito, com a compreensão dos fundamentos de um argumento e com o exercício meticuloso de reformulação de uma tese. Tais alunos são vítimas de uma leitura de mundo distorcida que lhes apresenta a razão discursiva como exercício inoperante face à supremacia da razão instrumental. Daí, as afirmações expressas no início deste post e a "clássica" sentença: "quero ver é na prática, professor"

quarta-feira, 17 de março de 2010

"Felícit-as, átis"

Nominativo - a felicidade (felícitas);
Genitivo - da felicidade (felicitátis).

É bom manter o título em latim, pois assim os romanos e os gauleses poderão encontrar este artigo em um sítio de busca qualquer, arqueológico talvez.
Felicidade! Feliz é Félix. A ausência da felicidade é sempre tristeza? Como a história ocidental concebe a felicidade?
Para os gregos clássicos, inventores da razão como princípio ordenador do conhecimento e disciplinador da ignorância, a felicidade era tida como uma questão política. Ser feliz significava o mesmo que fazer bom uso dos prazeres. Não nos iludamos; o prazer supremo estava em operar o bem comum.
Com o advento do cristianismo e sua predominância durante a Idade Média, a felicidade passa a significar o mesmo que abstenção dos prazeres. O corpo e seus prazeres são fontes de pecado.
Na contemporaneidade, substituindo a filosofia e a religião, a propaganda midiática desobstruiu a felicidade da arena da razão e a destronizou do altar da fé. A propaganda, segundo Ricardo Goldenberg - psicanalista, encontra um modo UNIVERSAL de satisfazer a todos. A esta satisfação, pouco perene, é que se atribui o nome de felicidade. Felicidade tão volátil quanto o cheiro do estofado de um carro "zero" e tão fútil quanto a inércia do olhar diante de uma imagem/tela HD big, macro, plus, hiper polegadas.
A felicidade não diz respeito aos espaços públicos de debates e decisões quanto a vida da pólis, também não se relaciona com a busca espiritual supra-sensível. A felicidade é imediata e sua base é a volição automatizada de prazeres irreprimíveis que, em boa parte dos casos, satisfazem somente seu próprio genitor. Todos somos felizes, basta sonhar. Para tanto, não é mais preciso alimentar utopias - a exemplo da democracia grega ou do paraíso cristão - basta vidrar os olhos e mirá-los na "caixinha de imagens", pois o deus "mass média" a tudo e a todos proverá. Não há espírito no qual esteja ausente a felicidade e a tristeza seja seu senhor. Há, em contrapartida, um espírito materializado que consome simulacros da felicidade. Este estado do ser não é permeado pela tristeza, mas pela ignorância.