quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Quando me faltam as palavras

Há palavras de todos os tipos.

Palavras escolhidas, para quando se quer bem. Estas insistem em nos faltar;
palavras embargadas, para quando se ama. Estas são caladas pelo beijo.

Palavras vociferadas, para quando se braveja. Estas teimam em não se calar;
palavras lançadas ao vento, para quando se deseja romancear.

Palavras cabeludas, para quando se quer insultar. Estas nem escolhendo hora dá pra falar. Escabrosas...
palavras ao léu, do tipo música do créu. Estas nem por Deus do céu.

Palavras palavreadas, para quando se quer escrever algo como isto aqui. Frutos da insônia, não me deixam dormir;
palavras palavrosas, para quando se quer dar uma aula de metafísica. Estas não são facilmente ouvidas.

Há palavras que me faltam. Estas não escolhem tempo ou lugar. Nem Aurélio me as faz falar. São aquelas comunicadas apenas com um olhar.

Para que vivi

Três paixões sensíveis, porém tremendamente fortes, têm regido minha vida: o desejo de amar e ser amado, a busca do saber e uma compaixão, superior as minhas forças, pelo sofrimento da humanidade. Estas paixões, como ventos fortes, tem me levado de um lado a outro, em navegação tortuosa, pelo oceano profundo da angústia, até mesmo a beira do desespero.

Busquei primeiro o amor, porque traz consigo o êxtase – êxtase tão grande que muitas vezes eu sacrificaria o resto de minha vida por umas poucas horas de seu gozo. Busquei-o, também, porque o amor alivia a solidão – essa terrível solidão na qual o trêmulo ser que tem consciência de si mesmo se desponta à margem do universo e vê um frio abismo sem fundo e sem vida. E busquei-o, finalmente, porque na união que é o amor vi, como em mística miniatura, a visão anunciadora desse céu que os santos e os poetas têm imaginado. Isso é o que busquei e, ainda que pareça talvez demasiado gozo para o homem, isso é o que, ao final, encontrei.

Com a mesma paixão busquei o saber. Desejei compreender o coração do homem. Quis saber por que brilham as estrelas. Intentei apoderar-me do poder pitagórico graças ao qual o número triunfa sobre o fluxo. Algo disto, ainda que não muito, consegui.

O amor e o saber, enquanto me foram possíveis, me levaram para cima, até os céus. Mas a compaixão me devolveu sempre à terra. Ecos de gritos de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, anciãos inválidos que são somente uma carga odiada para seus filhos, e todo esse mundo de solidão, pobreza e sofrimento burlou o que a vida humana deveria ser. Aspiro com toda minha alma aliviar o mal, mas não posso e sofro.

Esta tem sido minha vida. Julgo-a digna de ser vivida e, se me dessem a oportunidade, voltaria a vivê-la com gosto.

Bertrand Russell