quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cutrale: agronegócio versus agricultura familiar

A região do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado de São Paulo, tem hoje uma paisagem recortada por assentamentos de trabalhadores rurais e fazendas (em sua imensa maioria fruto de grilagens). Nem sempre isto foi assim, há vinte anos o cenário era praticamente todo ele latifundiário, gado e capim.

Os assentamentos têm alterado a paisagem local. Em lugar do pasto extensivo o plantio de café, mandioca, milho, feijão e hortaliças. Em cada pequena propriedade rural os assentados têm uma pequena área de reflorestamento, formada com o plantio de árvores nativas e de espécies frutíferas.

Tradicionalmente a região do Pontal não possui grandes plantios de frutas cítricas. Todo o mercado local de consumo de laranjas, por exemplo, é abastecido pelos produtos oriundos das fazendas de laranja localizadas em outras regiões paulistas.

Andando pelos assentamentos será muito pouco provável que se encontre um “pé” de laranja sequer. Por que? Entre meados e final da década de 1990 os pequenos estabelecimentos comerciais do Pontal começaram a ser abastecidos com laranjas, limões e outros frutos cítricos oriundos dos assentamentos e não das Centrais de Abastecimento (Ceasa). O mercado feirante passara, na época, a atrair os consumidores dos produtos do agronegócio. Com a ameaça da perda de espaço os “grandes” produtores de laranja arquitetaram ação junto ao governo do Estado que através da FUNDECITRUS (que defende os interesses da agropecuária) passaram a monitorar os plantios de frutas cítricas dos assentamentos. Deste momento em diante, em questão de dois anos (2000 e 2001) todos os pomares de laranja e limão dos agricultores assentados estavam condenados com a praga do “amarelinho” (pesquisas capciosas) e foram arrancados com moto cerras. Até mesmo aquelas famílias que tinham apenas o plantio de duas ou três árvores de laranjas, limões ou mexericas, destinadas ao consumo interno, tiveram suas árvores derrubadas. De uma hora para outra a dieta alimentar destas famílias se alterou e foram então, forçosamente, obrigadas a complementar seus suprimentos de vitamina C com a compra do bagaço (não dá pra chamar aquilo de laranja) vendido nos mercados urbanos.

Curiosamente nenhum veículo midiático noticiou indignadamente a destruição dos plantios de laranjas dos assentamentos rurais do Pontal. Isto é compreensível quando se percebe qual é a dinâmica que orienta a mídia liberal: é útil aquilo que causa a felicidade individual cujo intuito é assegurar o bem comum (soa paradoxal). Numa escala de valores, orientada pelo critério do utilitarismo, tem mais valor os fatos - por isso a cobertura do caso Cutrale em detrimento do ocorrido no Pontal no início desta década - para os quais as conseqüências firam a lógica do maior bem ao maior número de pessoas. Portanto, para a mídia a ação do Fundecitrus contra os plantios de laranjas dos assentamentos do Pontal é moralmente justificável, ao passo que a ação dos sem-terra na Fazenda Cutrale é moralmente ilegítima, porque não resultaria do maior grau de felicidade para o maior número de pessoas. E qual é o summum bonum para a Mídia? Pela ótica invertida das lentes da mídia o agronegócio exportador de matéria-prima causa mais bem à economia nacional e, portanto, à nação, do que a agricultura familiar.