quarta-feira, 18 de março de 2009

Senso Comum Pedagógico









Resenha Descritiva

LUCKESI, Cipriano Carlos. Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez, 1992.

Uma apresentação:

No texto Filosofia do Cotidiano Escolar, Luckesi (1992, p. 94) preocupa-se em:

a) conceituar o que é o senso comum;
b) descrever como o senso comum se manifesta no ambiente escolar;
c) denunciar as razões pelas quais o senso comum permanece atuante no interior da escola.

O que é o Senso Comum?

Partindo da tese segundo a qual a prática pedagógica se alicerça não em uma filosofia crítica, mas nas prerrogativas do senso comum (1992, p. 93 e 96), o autor objetiva “[...] explicar alguns dos elementos do senso comum pedagógico [...]” e "[...] descrever esse senso comum a partir da prática pedagógica dos profissionais da educação” (LUCKESI, 1992, p. 97).
Luckesi ressalta que o ser humano nasce sob certas circunstâncias – sociais, históricas e geográficas - e a partir delas formula, de forma espontânea, uma maneira de entender a realidade. Esta forma espontânea de percepção do real é denomina, pelo autor, senso comum.
Neste sentido, o senso comum é definido como:
a) um conjunto de “[...] conceitos, significados e valores que adquirimos espontaneamente, pela convivência, no ambiente em que vivemos.” (LUCKESI, 1992, p. 94);
b) “[...] um modo de compreender o mundo, constituído acrítica e espontaneamente, que se traduz numa forma de organizar a realidade, as ações diárias, as relações entre as pessoas, a vida como um todo” (LUCKESI, 1992, p. 96).
c) “[...] uma configuração espontânea, fragmentada e acrítica do pensamento e do entendimento” (LUCKESI, 1992, p. 106).
Segundo Luckesi, o senso comum nasce de um processo de socialização, sofrido pelo ser humano, e a partir do qual ele se acostuma a uma explicação ou a uma compreensão da realidade que já estão socialmente pré-fabricadas. Esta postura conformista impedirá o ser humano de submeter as evidências do cotidiano a um exame mais cuidadoso, crítico e questionador.
É possível afirmar, então, que o senso comum é uma forma de conhecimento a partir da qual o ser humano, de maneira superficial e ingênua, sustenta, dentre outras coisas, uma série de valores que estão postos a serviço da manutenção de uma determinada ‘ordem social’, caracterizada, no caso das sociedades capitalistas, pela desigualdade social, política e econômica.
Em contrapartida, o rompimento com o senso comum requer que se cultive o bom senso que é uma espécie de núcleo saudável do senso comum. O bom senso possibilita que a visão do ser humano recaia sobre os elementos efetivos da realidade, desvendando-a através do senso crítico (LUCKESI, 1992, p. 96).

Como atua o senso comum pedagógico?

Após definir o que é o senso comum Luckesi se ocupa em observar como este tipo de conhecimento se manifesta no ato pedagógico.
Primeiramente o diagnóstico recai sobre a figura do educador. À luz da manifestação do senso comum no processo educativo, o educador é visto como alguém de quem não se exige uma adequada preparação científica e muito menos um compromisso político de sua prática docente (LUCKESI, 1992, p. 98). Desta feita, prevalece no cotidiano escolar uma visão segundo a qual o educador é um dominador e transmissor de conteúdos e um disciplinador de alunos.
Em outro momento do texto, ao analisar a figura do educando o autor denuncia que este é concebido pelo senso comum como um ser passivo (p. 98), um ser dependente e um ser incapaz (p. 99), dentre outras coisas, de tecer julgamentos sobre si mesmo e sobre a sua própria aprendizagem (LUCKESI, 1992, p. 100). O autor frisa que prevalece no cotidiano escolar, entre os professores que concebem seus alunos sob a ótica fragmentada do senso comum, uma concepção idealista do educando. Segundo esta postura o professor concebe o aluno, em sala de aula, como um sujeito portador de uma natureza que não é moldada por circunstâncias sócio- históricas e culturais.
Quanto à questão do conhecimento Luckesi observa que para o senso comum pedagógico o conhecimento é representado acriticamente como sinônimo de informações advindas do texto ou do livro adotado em sala de aula. A produção do conhecimento, nesta ótica, está limitada à retenção de informações que serão repetidas pelo aluno sempre que este for avaliado. Desta forma, o senso comum impede que se perceba que o conhecimento é um instrumento de entendimento da realidade e impede que o aluno compreenda que o texto utilizado em sala de aula deve ser trabalho a partir do contexto hitórico-social de sua produção.
Quanto ao conteúdo ministrado em uma sala de aula, tendo como base o livro didático, é possível afirmar que para o senso comum pedagógico, segundo Luckesi, o conteúdo não necessita ser assumido de forma crítica e reflexiva por professores e alunos. O senso comum esta presente em fórmulas fragmentadas de percepção da realidade fabricadas a partir do ensino não problematizado dos conteúdos. Em livros de História, por exemplo, os fatos relativos às descobertas marítimas são narrados sempre a partir da ótica do conquistador. Em livros de Geografia, por exemplo, a representação do mapa mundi é feita sempre a partir da perspectiva européia – a Europa, com seus costumes e valores, é assumida como centro do mundo. O senso comum, neste tocante, generaliza um ponto de vista de forma que passe a ser aceito, em sala de aula, como o ponto de vista dominante. “O senso comum pedagógico toma por verdade aquilo que é uma forma de interpretar a realidade.” (LUCKESI, 1992, p. 103).
Por sua vez, o material didático é assumido, segundo a presença do senso comum pedagógico, de forma sagrada (LUCKESI, 1992, p. 104). Ao ser assim assumido o livro didático, bem como o seu conteúdo, não é exposto à dúvida por professores e nem pelos alunos. Portanto, o senso comum contribui para a cristalização de uma postura pedagógica atravessada pela ingenuidade e pelo comodismo didático.
Os métodos e procedimentos de ensino também são alvos do senso comum pedagógico. A concepção predominante é a de que o planejamento se limita a uma mórbida descrição das possibilidades de condução de uma aula: aula expositiva, dinâmicas de grupo, avaliação oral etc (LUCKESI, 1992, p. 105). Esta maneira de agir caracteriza-se pelo predomínio do senso comum, pois não é colocada em questão a necessidade de construção do planejamento a partir da escolha dos objetivos do curso, da disciplina ou da aula, o que ultrapassaria a construção do planejamento feito meramente a partir da maneira como será transmitido o conteúdo. Outra marca do senso comum pedagógico presente na elaboração do planejamento, salienta Luckesi, ocorre quando este se abstém de encaminhar o ato pedagógico por caminhos políticos e científicos. (1992, p. 105).

A quem interessa a permanência do senso comum?

Após expor alguns dos elementos que identificam a presença do senso comum no ambiente pedagógico, Luckesi menciona que o seu inventário não se construiu de maneira cabal, exaustiva e completa sendo necessário ainda, como último item de análise, saber por que o senso comum permanece presente no cotidiano escolar se ele não é, conforme o exposto ao longo de todo o texto, a forma mais adequada de pensamento e de conduta das práticas pedagógicas (LUCKESI, 1992, p. 106).
Em resposta a permanência do senso comum à frente do direcionamento da prática pedagógica, Luckesi observa que o senso comum pedagógico está a serviço de uma perspectiva social idealizada e concebida segundo a reprodução dos valores e interesses da classe economicamente dominante. Ao atuar sobre a educação o senso comum opera, em face de suas características, uma manipulação e mistificação da realidade social na qual a escola se circunscreve. Neste sentido, “o senso comum interessa (e muito) à situação conservadora da sociedade em que vivemos, em função do fato de que ele não possibilita o surgimento de uma ‘massa crítica’ de seres humanos pensantes e ativos na sociedade.” (LUCKESI, 1992, p. 107).
Em face do cenário exposto, o autor observa que o rompimento com o senso comum requer que os envolvidos com a realidade educacional se posicionem diante dela a partir do ato de filosofar. Ao filosofar sobre a educação professores e alunos promovem o inventário dos valores que regem as práticas pedagógicas e conseguem descobrir quais são os sentidos ocultos de tais valores. Em suma, conseguem perceber qual é o propósito da atuação do senso comum sobre o cotidiano pedagógico. O ato de filosofar é, assim, uma tentativa de ressignificar o cotidiano pedagógico a fim de que as relações estabelecidas na escola possam ser conduzidas por um conhecimento verdadeiro e livre das orientações pré-conceituosas e pré-fabricadas do senso comum.

4 comentários:

Prii disse...

Valeu profº.
XD

Milton disse...

Com todo respeito aos pedagogos e ao curso de pedagogia, até hoje, apesar de ter lecionado filosofia e metodologia para pedagogos, não descobri para que serve a pedagogia! Diante da filosofia, o legado dos pedagogos desaparecem! A metodologia (dialética), permite uma visão de mundo de forma pragmática e crítica. E a pedagogia? Milton Saito - Made in Japan

JESY disse...

oiiii

seu texto nos ajudou a realizar um trabalho sobre a permanencia do senso comum na escola, e como seremos pedagogas faremos o possivel para nao utiliza-lo na pratica docente...

saudades

ex-alunas 2° periodo da faculdade UNESC-cacoal/RO

Jesiéli e Kênia

meiacasa disse...

Olá Jesiéli e Kênia,

muito obrigado pela visita ao blog e pelo comentário.
Fico feliz que o resumo do texto de Luckesi vos tenha auxiliado.
Peço que notem, no entanto, que o autor faz uma análise dos fundamentos epistemológicos de um professor que atua em uma escola de tendência tradiconal.
Seria legal perguntar o que mudou na prática pedagógica de um professor que atua em uma escola de tendência escolanovista. Para tanto sugiro a leitura do livro A Epistemologia do Professor, de Fernando Becker.