quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A escola de educação básica e o aquecimento global

Uma atenção mais apurada aos noticiários telesivos e impressos, após os episódios de setembro de 2008, poderia conceber no mínimo curioso o cerco jornalístico em torno da crise norte-americana e o quase simultâneo abandono das matérias focadas no aquecimento global.
Nada de espanto, considerando que a cobertura midiática vive de modismos, não apura as causas dos fatos e consolida uma percepção aligeirada e enviesada da realidade.
Será que não há relações entre a crise econômica enfrentada pelos países de economia central e a crise ambiental? Para a mídia parece que não, haja vista que para esta o real é estanque e sua composição repousa na captação de seus fragmentos.
Mas, a ausência de percepção da relação existente entre um fato e outro não é uma exclusividade da mídia. A escola também é caolha.
Tomemos como exemplo a forma como se trabalha com a questão ambiental em significativa parte das escolas de educação básica, principalmente entre aquelas que concebem o texto dos PCNs como suprassumo.
Apoiada no discurso dos quatro pilares da educação a escola objetiva instruir o aluno nas questões ambientais negligenciando o causador primeiro das mazelas que redundaram na crise ambiental. Para a escola cada aluno é um poluidor em potência e, por isso mesmo, são necessários "projetos" de educação ambiental que ensinem o aluno a não dispersar o papel de bala pelo chão e a trabalhar a confecção de peças "artesanais" a partir de garrafas PETs recolhidas dos lixos domésticos.
Ao trabalhar desta forma o que a escola está neglicenciando?
Negligencia a causa do incêndio. A forma como se trabalha a educação ambiental nas escolas não evidencia a base produtiva-estrutural da sociedade capitalista da qual decorre parte significativa da responsabilidade sobre a crise ambiental. A escola não evidencia que o modelo de produção em torno do qual edificamos nossa existência conduz à falência da vida. E não o faz porque ela própria se comporta como instituição reprodutora e re-significadora deste modelo. A escola neglicencia que a indústria capitalista produz - supérfluos - em um ritmo tão acelerado que a natureza é incapaz de se recompor na mesma velocidade.
Incapaz de trabalhar com a causa dos fatos a escola fragmenta o real, tal qual a mídia, e quer nos fazer crer que o problema das alterações climáticas pertence a cada aluno de forma particular. Este estaria apto a resolver o problema - de forma imediatista e, portanto, ineficaz - uma vez que sua "engenhosidade" fora modelada a partir dos princípios empreendedores dos quatro pilares da educação:
a) saber ser : aprender a ser empreendedor;
b) saber conhecer: é o mesmo que aprender a aprender; isto é, saber a beneficiar-se das escassas oportunidades oferecidas;
c) saber fazer: estar apto a enfrentar as intempéries do mundo do trabalho, enfrentando situações que exigem "formação continuada" e desenvoltura para o trabalho em equipe. Trocando em miúdos: tornar-se um multi-uso.
d) saber viver juntos: propagado como a compreensão do outro não tem nada de semelhante com o princípio da alteridade, mas com a percepção das interdependências, principalmente em ambientes de trabalho, necessárias a realização de projetos.
A escola, agindo desta forma, contribui para a socialização dos encargos e custos ambientais originários não da ação isolada de indivíduos sobre o ambiente, mas da ação predatória da grande indústria capitalista.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A razão instrumental e a derrocada do indivíduo


Dentre a gama de temas enfocados pela Escola de Frankfurt podemos destacar, de modo particular, o interesse especial que Horkheimer e Adorno depositam sobre as questões relativas à emancipação humana e à leitura crítica do projeto societário iluminista, estribado este último no advento da razão.
A organização dos estudos e pesquisas destes frankfurtianos em torno das questões acima mencionadas se opera dentro do marco teórico da Teoria Crítica que pretende investigar e denunciar o caráter contraditório da racionalidade científica. Para tanto, Horkheimer e Adorno fabricam o conceito de razão instrumental como elemento chave utilizado na sondagem da sociedade moderna.
O diagnóstico que promovem sobre a situação histórico-social da época pós-guerra deflagra que a sociedade nascente sob os ditames da razão e da ciência nutria um projeto cuja condição humana era marcada muito mais pela barbárie do que pela emancipação.
Por que isto ocorre? Perguntam em “Dialética do Esclarecimento”.
Porque as forças que impelem à barbárie não se opõem, mas em contrapartida, se identificam com a racionalidade. E esta realidade é explicada através do conceito de razão instrumental.
Para a Escola de Frankfurt a razão instrumental toma a realidade como objeto de estudo da ciência com o propósito de conduzir a um controle e a uma dominação técnica dos processos naturais. Esta situação se agrava quando a necessidade de controle passa a ser chefiada pelos interesses da atividade industrial capitalista.
Este agravamento existe pelo fato de que a instrumentalização da razão torna-se mecanismo de adaptação do indivíduo aos quadros sociais marcados pelos pressupostos ideológicos do sistema capitalista.
Neste sentido, o indivíduo, cuja necessidade básica é autoconservar-se, se auto-impõe coerções e mimeticamente se adapta aos quadros comportamentais vigentes.
A indústria cultural, por sua vez, se encarrega de pulverizar a espontaneidade, a curiosidade e a criatividade do indivíduo submetendo-o a uma adesão cega às forças coletivas imperantes. Desta feita, Horkheimer e Adorno denunciam que o projeto de esclarecimento e emancipação do indivíduo desenhado pelo iluminismo promove, na verdade, a submissão deste ao imperativo de uma razão que despreza os fins da condição de existência humana e apega-se aos meios pragmáticos e técnicos de afirmação da conservação da vida. Nesta condição, o que realmente parece ser conservado é o caráter de autonomização da própria razão – instrumental – em relação ao indivíduo. Ou seja, a técnica que deveria ser instrumento pelo qual o homem passaria a dominar a natureza garantindo sua conservação e reprodução, torna-se, no capitalismo industrial, o instrumento de subjugação do próprio indivíduo, atravancando sua emancipação.