domingo, 28 de setembro de 2008

O que é Filosofia?

A Filosofia é um trabalho intelectual e em sua etimologia a palavra condensa uma definição extrema para a imaginação e mentalidade moderno-instrumental, em seu decurso histórico a Filosofia aborda problemas de preocupação comunitária, opera uma passagem do comodismo cotidiano para uma atitude crítico-racional frente aos diversos assuntos passíveis de especulação cognitiva e, além do mais, é tida como sendo uma doutrina de origem das demais ciências hoje existentes.

A palavra Filosofia é de origem grega, visto que é do território grego clássico que surgiram os primeiros pensamentos filosóficos, e significa, grosso modo, "amor à sabedoria". Foi empregada primeiramente, pelos filósofos pré-socráticos, com o intuito de sondar a origem do universo. Não tardou muito para que tivesse seu foco voltado ao ser humano com o intento de afirmar, de maneira socrática, que o verdadeiro conhecimento advém de uma sondagem introspectiva. Tanto na primeira quanto na segunda situação o pensamento filosófico conserva a tendência de incitar a indiferença às convenções sociais e investigar as coisas em suas causas mais primordiais. No entanto, em face das configurações estruturais da sociedade contemporânea, temos presenciado marcadamente o distanciado humano da atitude introspectiva promotora da amizade e do amor às questões filosóficas, porque as julgamos, a priori, demasiado abstratas e sem relevância aos propósitos societários do homo economicus.
Outro ponto importante, quanto à definição do que é a Filosofia, diz respeito a sua condição de conhecimento que procura tratar o real a partir de uma visão de conjunto. Neste sentido, a Filosofia é tida como um conhecimento que sonda tudo o que é objeto de estudos. Mas, nem sempre, por indagar a tudo, significa dizer que a Filosofia deva dar respostas a todas as suas especulações. Este não é o seu papel primordial. E mesmo que o fosse, seria necessário observar que das respostas dadas pela Filosofia estariam surgindo novas dúvidas, devido seu caráter crítico-racional. Esta dinâmica é o que assegura a produção do conhecimento e a busca constante do filósofo pela verdade.
Desta feita, pode se dizer que o caráter crítico-racional assumido pela Filosofia é o que promove uma indiferença às convenções sociais. O ser humano é, em demasia, acostumado a aceitar passivamente as heranças valorativas e atitudinais adquiridas ao longo de seu processo de socialização. Este processo, na maioria dos casos, atua como um instrumento de coesão e até coerção social. Um aspecto desta situação se opera mediante o cultivo de crenças ideológicas que atuam sobre a consciência do indivíduo condicionando seu comportamento social, à revelia de suas escolhas. A ideologia, neste sentido, pode ser tida como um conjunto de idéias que permitem, ao homem, uma compreensão enviesada da realidade. Estas idéias procuram ocultar as verdadeiras causas dos acontecimentos sociais. Neste sentido, a ideologia pretende se constituir na própria verdade das coisas, ao passo que a Filosofia, em contrapartida, não nega seu caráter de busca da verdade e, por isso mesmo, se apresenta como mecanismo desvelador do real. A Filosofia, neste tocante, objetiva afrontar os interesses sócio-econômicos estipulados por aqueles grupos que pretendem criar um projeto societário hegemônico e de mão única mediante a dissimulação dos reais objetivos de suas idéias, o que lhes permitiria promover uma dominação massificante escondendo a particularidade de seus intuitos e dando-lhes a aparência de interesses universais.

Cabe salientar que a base sobre a qual se institui a ideologia, entendida como falsa visão de mundo, é o que chamamos de senso comum: conhecimento empírico, acrítico, assistemático e incapaz de perceber a verdadeira causa dos fatos sociais. A Filosofia, no entanto, quer conduzir o homem a uma postura inconformista e radical diante da realidade captada pelo senso comum. Para tanto, é necessário que o homem transite do senso comum ao senso crítico, isto é, aborde tudo o que lhe rodeia e analise os fatos em suas profundezas - raízes - trabalhando para que sua verdadeira identidade seja transparente a todos.

Outra idéia a respeito do que é Filosofia advém da errônea percepção de que a mesma é pretensiosa demais. "Saber tudo em suas causas mais profundas?" Sim, é preciso que a Filosofia seja um conhecimento pretensioso como deveria ser para conseguir algo. O superficial não interessa e a visão fragmentada não é a área de trabalho com a qual a Filosofia se ocupa. A fragmentação do real, por sinal, é campo de pesquisa e abordagem das ciências particulares. O que são as ciências particulares? As ciências particulares são assim chamadas por serem derivadas da Filosofia. Ao se separarem da Filosofia adquiriram um determinado objeto de estudo específico e distinto quanto ao objeto de estudo de outra ciência particular qualquer. Por exemplo: a Física, pesquisando os corpos materiais em suas relações recíprocas, não pode estudar, e também não é sua incumbência, a vida dos seres viventes, isto cabe à Biologia. Essas ciências particulares têm como ciência mãe a Filosofia. Esta última trata a realidade de forma conjunta, em sua inteireza: "O que é o Homem?", pergunta a Filosofia. As ciências particulares, por sua vez, talham o todo em pequenos "bocados": "O que é homem, quanto ao funcionamento de sua psiqué"?, perguntaria a Psicologia. À medida que as ciências foram demarcando seu objeto, tornaram-se mais específicas para uma determinada área de conhecimento e acabaram se separando/emancipando da Filosofia, que vê e trata o real de uma forma totalizante.

Em vista dos fatos mencionados percebemos a englobação filosófica para com tudo o que é matéria de conhecimento, seu compromisso com a verdade e sua objetividade para com o raciocínio. No entanto, cabe ressaltar que responder à questão "o que é Filosofia?" é um trabalho que não se finda e o texto aqui exposto não tem a pretensão de tratar cabalmente a questão que o intitula. O que o leitor concebe a respeito da questão tema desta escrita?