quarta-feira, 9 de maio de 2012

Para que serve aquilo que importa?

Créditos: www.malvados.com.br
Há um antigo conto espanhol que apresenta a sina de um jardineiro em podar um loureiro. Com o propósito de agradar ao dono do arbusto o jardineiro procurou obter uma forma simétrica admirável. Após algum tempo de trabalho se distanciou do louro para uma apreciação. Julgou que ainda não havia encontrado as linhas ideais. Tesouras em punho retomou o trabalho. Depois de mais um tempo voltou a distanciar-se do objeto de seu labor. Contemplou-o sob vários ângulos e nada. Ainda eram necessárias mais algumas tesouradas ágeis. Depois de tanto trabalhar percebeu que havia, enfim, podado o louro em formas simétricas perfeitas e incontestáveis. Nada fugira de seus critérios técnico-artísticos. Satisfeito tratou de convocar o patrão para apreciar o feito. Ao se posicionarem frente ao arbusto o jardieniro foi parabenizado pelo dono do louro. "- Parabéns! Excelente trabalho! Porém, onde está o loureiro?"
No anseio de obter a forma perfeita e ideal que pudesse ser tomada como parâmetro para todas as demais podas de loureiro e que pudesse ser objeto de admiração e encanto de todo público apreciador, o jardineiro teria descaracterizado o arbusto ao ponto de não ser mais possível identificar ali um loureiro. 
A história do jardineiro parece revelar uma velha discussão que permeia o cotidiano de boa parte das pessoas, a relação conteúdo X forma; livro X equipamentos de musculação. Qual é o centro dos valores das ações humanas? Cabe refletir: a corrida estética existente na sociedade contemporânea tem como norte a obtenção de formas físicas ideais que possam ser assumidas como modelo para toda uma geração que, ao cultuar uma condição física ideal, não aceita envelhecer ou esta corrida estética teria uma intenção mais ampla, a saber: assegurar um envelhecimento saudável desta e das gerações futuras? Ademais, somente é posível envelhecer saudavelmente submentendo-se, durante a juventude, a uma rotina de exercícios que, cada vez mais, expoem as forças físicas aos seus limites?

terça-feira, 24 de abril de 2012

O que é lógica?

Ouvi esta piada uma vez, ainda na faculdade de Filosofia, e não deve ser tida senão enquanto tal.

Na da década de 1990 um trabalhador da metalurgia, andando pelo Congresso Nacional, em Brasília, topou com o seu amigo Cientista Social que portava debaixo de um dos braços um livro amarelo e grande. Muito curioso perguntou ao amigo.
- O que é isto, hem?
- Isto? É um livro de lógica, meu caro.
- Ah! Lógica. E... o que é lógica? Perguntou o trabalhador.
Com muita pressa para seu encontro partidário o Cientista Social pediu ao amigo que lhe acompanhasse pelo caminho. Com todo cuidado, sensibilizado pela dúvida do metalúrgico, tratou de confeccionar uma exposição o mais didática possível.
- Vou explicar-lhe o que é lógica. Você tem aquário em sua casa? Perguntou o culto.
- Sim. Respondeu o trabalhador sem entender nada.
- Se você tem aquário em sua casa, você tem peixinhos em seu aquário.
- Tenho sim. Respondeu o metalúrgico meio intrigado. - São 13 peixinhos.
- Se você tem um aquário em sua casa, se há peixes no aquário, você tem filhos.
- Tenho, tenho. Minhas crianças adoram os peixinhos.
- Pois bem, se você tem um aquário em sua casa, se há peixinhos no aquário e se você tem filhos que gostam dos peixinhos, você é casado.
- Sou mesmo. Já faz muitos anos que sou casado com minha mulher, mãe de meus filhos.
Seguiu o cientista. - Se você tem um aquário em sua casa, se há peixinhos no aquário, se você tem filhos que gostam dos peixinhos e se você é casado com uma mulher, a mãe de seus filhos, ENTÃO você é homem, não é mesmo?
- É claro que sou homem! Exclamou o trabalhador dando um pulo para o alto. "- Você tem alguma dúvida?"
- Calma! Tá vendo, a lógica é isso aí. Uma conclusão óbvia e verdadeira que se obtém de um conjunto de afirmações válidas. Disse evasivamente o cientista.

Empolgado com a explicação e com a sua capacidade de compreensão o trabalhador despediu-se de seu amigo político. Passou em uma livraria, comprou um livro idêntico ao do amigo e seguiu direto para uma convenção na capital paulista. Chegando lá encontrou um outro amigo trabalhador ainda muito moço. Este, ao ver o metalúrgico com um livro grande e amarelo debaixo de um dos braços, perguntou-lhe:
- O que é isto aí que você carrega?
- Isto? É um livro de lógica. Disse todo empolgado por alguém ter notado o feito.
- Lógica? Estranhou o jovem amigo que, querendo testar o metalúrgico, logo emendou:
- E o que é Lógica, hem?
- Lógica é... Cê tá com tempo?
- Sim. Respondeu o jovem.
- Então, senta aí que a história é longa. Mas vou ser didático tá?
- Está bem.
- Você tem aquário em casa? Perguntou o metalúrgico ao amigo.
- Não.
- Ah! Então, você não é homem.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Neoliberalismo, Cavalo de Tróia e "Democracia" grega

Créditos da Charge: Maringoni. Fonte: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19654
Na superfície do fato. Com a aprovação de mais um repasse financeiro do FMI e da União Européia à Grécia, no valor de 130 bilhões de euros, e somando-se a esta medida a ingerência administrativa dos referidos credores poder-se-ia afirmar, a despeito da democracia ateniense clássica nos tempos de Sólon e de Platão, que na Grécia contemporânea todo estrangeiro - neoliberal - é um cidadão grego, somente não o é o próprio grego. Ironia da História?
A União Europeia "presenteia" o berço da democracia com uma nova versão do Cavalo de Tróia. Mas, quem é o inimigo a ser confrontado e dominado? Desta vez, o povo/trabalho é o objeto a ser achicalhado pelo capital. E o que ocorreu com o poder que emana do povo e para o povo? Degenerou-se em uma tirania, afirmaria Platão, pela qual se suprimiu a liberdade reprimindo, assim, toda e qualquer ameaça ao poder/capital especulativo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Inverno

Nada naquele dia era propício para um passeio, mas como de costume insisti em fazê-lo uma vez mais. O ar úmido e frio ardia em minha face vermelha. A manhã não acordava com o canto dos pássaros; com a luva limpo os óculos, então noto que o caminho adiante se bifurca não sendo nada agradável por ele seguir. Estrada acima, escorregadia, ou caminho abaixo, liso como se fora uma pista de gelo.
O orvalho lubrificou as pedras, esforcei o pé na estrada, o frio aumentava, mas decidi continar.
As árvores à beira do caminho são como monstros de neve branca, apenas combatidos pelo sol, que timidamente os consome. De súbito um movimento na neve ao pé de uma das árvores, imagino ser, devido sua intensidade, um animal de pequeno porte flagelado.
Crio coragem, aproximo-me do local, curioso, abro espaço na neve com alvoroço, apalpo algo duro e áspero, descubro-o, era sim um animal, mas racional. Seu queixo tremia, olhos negros retorcidos, pobre homem, físico avantajado, porém socialmente rejeitado.
Decido voltar, coloco o pobre homem nas costas, sinto meu frio crescer, aquele corpo, agora um bloco de gelo, me fez refletir, também faço parte desta sociedade.
O gemido do muribundo soa em meu ouvido como o choro de uma criança abandonada, maltrapilha, com frio, sem cobertor e sem calor humano, como fora eu próprio. (P.P. 28-06-1994)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Convivência

Encostado ao poste, observava a avenida.
Carros se entrelaçavam em um vai e vem frenético, motos barulhentas circulavam cortando o ar.
O guarda de trânsito soava o apito, os carros paravam dava-se passagem aos pedestres.
As casas de comércio não tinham a não ser curiosos em busca de ofertas.
O menino vendia um sorvete de caju, aparentemente gostoso.
Mas ninguém se toca, ninguém se vê, uma dor sobe, angustia, machuca-me.
(P.P. - 1994)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A fazenda

A fazenda fora próspera e bela, hoje o abandono tornou-a irreconhecível.
O silêncio tomou-a por completo, não se ouve o mugido do gado, o canto das aves domésticas e nem o latido do cão caçador. Multiplicou-se a vida vegetal daninha que se apoderou do jardim e invadiu o estábulo, tomou conta do aviário, fluiu casa adentro, rompendo portas e janelas, assoalho e teto.
A manhã já não se levanta como antes, saudando a vida da fazenda, as plantações no campo, as águas do córrego; do outro lado o sol se põe sem motivação para voltar ao nascente e a noite cai como um "blecaute", um abismo, um cenário fantasmagórico de gigantescas e amentradoras árvores, balançadas no sono noturno, pela brisa leve que provoca a emanação de um forte cheiro de mato. (P.P. - 1994)

Convite

"Foi no fim do verão que Ele e três outros homens passaram pela primeira vez por aquela estrada ali. Era à tarde, e Ele parou e ficou de pé lá no fim do pasto.
Eu estava tocando a minha flauta; o meu rebanho pastava à minha volta." Percebi que usava um roupão semelhante a uma túnica e que acenava para mim com uma das mãos.
- Corra, garoto, falou um de seus amigos.
- Estou indo! Abri caminho por entre o rebanho.
- Os senhores desejam algo? Meu pai está do outro lado com meus irmãos.
Não recebi de imediato resposta de nenhum dos homens, que aparentavam ter andado muito, o suor corria pela face queimada de cada um deles. Voltei a indagar aquele que me acenara, parecia o chefe dos demais, pois era sereno no olhar e gestos.
- Posso servir-lhes em alguma coisa? Um copo d'água, um prato de comida, ou desejam falar com meu pai?
- Eu quero a ti menino, dê-me sua vida, quem ama a sua vida vai perdê-la, mas quem a perde por causa do meu rebanho, vai ganhá-la.
- Mas, eu já dispenso minha vida todos os dias cuidando do rebanho de minha família! Vejo que seu rebanho é grande, pois levas três homens para pastorá-lo e ainda procuras mais pessoas para o serviço. Porém, se queres que eu vá, sinto muito, tenho que ajudar meu pai. Três homens já não lhe é o suficiente?
- São muitos, meu caro, os convidados mas poucos os escolhidos.
Neste instante um dos homens, muito barbudo, falou-me com repreensão.
- O rebanho de nosso mestre não é deste reino.
- Mas não posso trabalhar para o senhor, tenho que fazer o trabalho para meus pais e irmãos enquanto cuidam da lavoura.
- Deixe que os mortos enterrem os mortos, dedique sua vida a quem anseia viver.
Ao falar isso continuaram a andar pelo caminho. Fiquei parado, perplexo, queria entender tudo aquilo. Ele falava com autoridade e apesar de minha negativa não vi sentimentos de frustação em seu semblante.Olhei para trás para o rebanho que pastava tranquilamente sem nenhum dirigente, voltei o olhar para frente onde os homens continuavam a ganhar o horizonte. Não resisti a uma pulsação forte do coração, me coloquei a seguir lhes os passos.
- Ei, ei! Esperem por mim!  Cadê suas ovelhas? Senhor, onde está seu cajado?
(Presidente Prudente-SP. 10 de novembro 1994.)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Música independente

O site Musicoteca - www.amusicoteca.com.br - congrega algumas composições musicais de artistas brasileiros independentes. As músicas podem ser ouvidas desde o site ou ainda podem ser copiadas gratuitamente. Para conferir matéria na integra basta acessar: http://radioagencianp.com.br/10491-musica-independente-brasileira-disponivel-gratuitamente-na-musicoteca.