"Foi no fim do verão que Ele e três outros homens passaram pela primeira vez por aquela estrada ali. Era à tarde, e Ele parou e ficou de pé lá no fim do pasto.
Eu estava tocando a minha flauta; o meu rebanho pastava à minha volta." Percebi que usava um roupão semelhante a uma túnica e que acenava para mim com uma das mãos.
- Corra, garoto, falou um de seus amigos.
- Estou indo! Abri caminho por entre o rebanho.
- Os senhores desejam algo? Meu pai está do outro lado com meus irmãos.
Não recebi de imediato resposta de nenhum dos homens, que aparentavam ter andado muito, o suor corria pela face queimada de cada um deles. Voltei a indagar aquele que me acenara, parecia o chefe dos demais, pois era sereno no olhar e gestos.
- Posso servir-lhes em alguma coisa? Um copo d'água, um prato de comida, ou desejam falar com meu pai?
- Eu quero a ti menino, dê-me sua vida, quem ama a sua vida vai perdê-la, mas quem a perde por causa do meu rebanho, vai ganhá-la.
- Mas, eu já dispenso minha vida todos os dias cuidando do rebanho de minha família! Vejo que seu rebanho é grande, pois levas três homens para pastorá-lo e ainda procuras mais pessoas para o serviço. Porém, se queres que eu vá, sinto muito, tenho que ajudar meu pai. Três homens já não lhe é o suficiente?
- São muitos, meu caro, os convidados mas poucos os escolhidos.
Neste instante um dos homens, muito barbudo, falou-me com repreensão.
- O rebanho de nosso mestre não é deste reino.
- Mas não posso trabalhar para o senhor, tenho que fazer o trabalho para meus pais e irmãos enquanto cuidam da lavoura.
- Deixe que os mortos enterrem os mortos, dedique sua vida a quem anseia viver.
Ao falar isso continuaram a andar pelo caminho. Fiquei parado, perplexo, queria entender tudo aquilo. Ele falava com autoridade e apesar de minha negativa não vi sentimentos de frustação em seu semblante.Olhei para trás para o rebanho que pastava tranquilamente sem nenhum dirigente, voltei o olhar para frente onde os homens continuavam a ganhar o horizonte. Não resisti a uma pulsação forte do coração, me coloquei a seguir lhes os passos.
- Ei, ei! Esperem por mim! Cadê suas ovelhas? Senhor, onde está seu cajado?
(Presidente Prudente-SP. 10 de novembro 1994.)