terça-feira, 16 de agosto de 2016

A realidade é plural

O mundo é plural, afirmou Hannah Arendt em A Vida do Espírito. A pluralidade do mundo não significa afirmar que o real é dual, senão que a realidade é múltipla e diversa e nisto consiste a sua singularidade e unicidade. 
Cada coisa que existe, por assim dizer, existe de forma singular. As singularidades, por sua vez, implicam em conceber que o todo é a unidade dos singulares. Isto é o que garante a pluralidade do real.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Da política e a corrupção

Quando nauseabundamente um político vier, como o ar da manhã, osculante granulomar seu ego e paulatinamente fujicar seu divã, sorria profilaxiamente pudibundante.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Cracia

Na democracia do Estado Neoliberal há um concreto que abriga os prezados; há um decreto que obriga os desprezados.

domingo, 31 de maio de 2015

Urbanismo e Desenvolvimento: a árvore e o ornamento

O Evento
Em setembro de 2014 a UFMS/NA realizou uma roda de conversa com a temática título deste post cujo objetivo era "[...] possibilitar aos participantes um momento de reflexão sobre a ética e a estética no uso de variedades e espécies vegetais na arborização dos espaços urbanos de Nova Andradina."
Não sendo um especialista no tema restou-me compilar, no modo de um fichamento, algumas leituras que me possibilitaram apresentar algumas ideias em torno dos elementos histórico-filosóficos envolvidos na composição da paisagem urbana.

Urbanismo, ser humano e natureza
O ponto de partida é a preocupação de Henri Lefebvre quanto ao estágio de desenvolvimento a que o urbanismo tem conduzido o ser humano (SOUZA). Dado a relação hodierna entre natureza e sociedade, não será exagero afirmar que o urbanismo tem nos condizido: 1º) à exclusão estética de nossa capacidade de percepção do belo e 2º) à exclusão ética de nossa capacidade de refletir sobre a finalidade (moral) da vida em sociedade.
Assim, ao longo do tempo, teríamos transitado de uma relação harmônica entre natureza e sociedade, encontrada entre os gregos clássicos, para uma dicotomia desta relação, encontrada na atualidade.

A harmonia entre natureza e sociedade
Como os gregos concebiam a relação entre natureza e sociedade? Na Grécia Clássica a pólis (cidade) é uma extensão da physis (natureza). O que isto significa? Significa que ao organizar a pólis os gregos são movidos pela tentativa de estabelecer a harmonia entre os seres humanos e seu meio.
O que é a physis, neste contexto? É o elemento vital de onde tudo se origina (inclusive o próprio ser humano). Ela é o mundo ordenado ao qual os pré-socráticos se referiam em oposição ao caos.
Assim, o homem grego não está alheio à natureza. Ele recebe dela, enquanto ser vivo, uma ordem que deve respeitar ao longo de sua existência. O que isto quer dizer? Exatamente que a natureza está no ser humano e o envolve. A natureza une o ser humano ao mundo e orienta sua forma de viver. 
Não se pode fazer, por isto, tudo o que se quer, mas se deve fazer aquilo que é Bom. E o que é o Bom? Bom é tudo aquilo que fortalece o vínculo harmonioso entre homem e natureza.
Neste sentido, os estóicos sustentam que viver conforme a natureza não significa renunciar a razão, mas viver feliz. A natureza é concebida como um guia da ação moral humana.
Para Aristóteles, por sua vez, a natureza é dotada de uma finalidade/telos (MARCONDES). O ser humano é parte da natureza.
Qual é a finalidade da natureza?
Cada coisa que pertence à natureza deve realizar seu potencial. Este processo é imanente ao Ser. Está na natureza própria das coisas existentes. Quanto ao ser humano, o processo de realização de sua potencialidade depende das decisões corretas que tomar.
Disto decorre a importância da ética, racionalidade prática, que conduz o homem às decisões corretas objetivando instaurar a vida virtuosa cujo objetivo central é a felicidade (eudamonia), entendida como realização plena do potencial humano.
O que é a felicidade e como o ser humano pode alcançá-la? Na metafísica aristotélica a felicidade é a contemplação das verdades eternas. O homem a atinge na medida em que aquilo que faz corresponde à excelência humana e é bem feito.
É importante nos perguntarmos como Aristóteles partilha da concepção grega de integração do ser humano com o mundo natural de forma harmônica?
Primeiramente, para o filósofo grego, o ser humano é parte da natureza (MARCONDES) e, posteriormente, para Aristóteles o saber técnico (téchne), por meio do qual o ser humano intervém na natureza, deve ser subordinado à decisão, isto é, ao saber prudencial ou ação correta. Esta evita os extremos (excesso e falta) e estabelece o meio termo (justiça e equilíbrio) que conduz à felicidade.
Este momento da integração homem X natureza fundou um tipo histórico de cidade, a saber: a cidade política (SOUZA).

A Cidade Política, a Cidade Comercial, a Cidade Indústria e a Sociedade Urbana
A cidade política é o lugar do fórum público (SOUZA). É o local onde as pessoas se encontram, em espaços públicos, para debater a vida e a organização coletiva e democrática da cidade. Entretanto, com a ruptura da relação direta entre homem e natureza, a cidade política deu espaço à cidade comercial.
A cidade comercial, em contrapartida, é o lugar da troca (SOUZA). É o espaço de encontro entre pessoas que se reúnem para o escambo de coisas.
Agora, a cidade existe não mais isolada de um território (Cidade Estado grega). Mas, ela subordina a si todo o território que a circunda. A cidade passa a ser um centro de relações comerciais, predominantemente.
Com o advento da Revolução Industrial e a transformação do capital comercial em capital industrial surge uma nova organização do espaço urbano: a cidade indústria.
Nesta nova configuração a cidade passa a ser o lugar de depósito das pessoas (SOUZA). Nasce o espaço de alojamento das pessoas.
Este tipo de cidade surge perto das fontes de energia. A natureza está, assim, submetida e subjugada ao desenvolvimento da indústria. Esta promove o crescimento expansivo da cidade fazendo surgir a sociedade urbana.
A sociedade urbana é o espaço de dissolução da cidade (SOUZA). Forma-se um tecido urbano com territórios bem delimitados contendo: as periferias, os subúrbios, as cidades satélites e as conurbações.
Vivemos neste tempo em que a sociedade urbana possui uma dimensão planetária.
A era do urbano tem, desta forma, nos conduzido a um tipo de desenvolvimento impulsionado por uma organização racionalista (SOUZA) do espaço urbano que tem marcado a existência de espaços não democráticos, a chamada cidade-controle, e afirmado uma maior segregação das relações humanas.

Do que somos capazes?
Quais são os efeitos da sociedade urbana sobre seus habitantes nos aspectos ético e estético? O planejamento do espaço urbano tem aumentado a segregação social e não tem conseguido dar respostas satisfatórias às, cada vez mais crescentes, poluições visual e sonora.
Como efeito tem-se uma fuga para a subjetividade. Alguns sintomas são facilmente perceptíveis: aumento do uso de fone de ouvindo enquanto nos deslocamos pela cidade, uso cada vez menor das praças públicas e aumento do tempo que ficamos em casa, usufruindo das comodidades tecnológicas, substituição da rua pelo computador, troca da sombra das árvores pela comodidade do condicionador de ar.
A cidade tem se tornado um espaço urbano não familiar e destituído de afeto, emoção e significado. Nasce, assim, um homem desenraizado de seu lugar na medida em que por lugar se entende um território subjetivado e um espaço significado pelo homem. Em decorrência assiste-se uma fuga do ser humano para ambientes exóticos. Destaca-se a crescente busca pela natureza, pois ser humano, neste contexto, é ser longe do outro ou das práticas sociais que ocorrem na cidade.
O que está ao nosso alcance?
Compete-nos constituir ambientes esteticamente agradáveis que nos devolvam o sentido de pertença à humanidade? Sim, mas não só. Ao lado do arranjo estético (árvore ornamento) a cidade precisa ser o locus privilegiado (do exercício da democracia) da recreação, do lúdico e da espontaneidade social. A cidade é, hoje, o espaço daquilo que é fechado (condomínios), do privado (centros comerciais) e da troca - valor de troca (especulação imobiliária).
Compete-nos, ainda, superar a constituição da cidade em lugar onde se dividem as pessoas, politicamente e culturalmente, e superar também a compreensão do urbanismo, decorrente do surgimento do Estado moderno, como maneira de planejar, conceber, e estruturar as cidades em base ideológico-material ditada por um poder central (LOUREIRO).
Para Marx, é necessário transformar o conjunto das relações sociais e não somente a forma de organização de um espaço ou a mudança de comportamentos e atitudes.

FONTES:
LOUREIRO, Frederico. Karl Marx: história, crítica e transformação social na unidade dialética da natureza.
MARCONDES, Danilo. Aristóteles: ética, ser humano e natureza.
PACHECO, Cristiano Ricardo de Azevedo. Espaços não democráticos de relações humanas: interligações segregadas.
SANTOS, José Lázaro de Carvalho. Reflexões por um conceito contemporâneo de urbanismo.
SOUZA, J. Francisco Saraiva de. Henri Lefebvre: crítica ao urbanismo (1). In: http://cyberdemocracia.blogspot.com.br/

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Michelangelo - Capela Sistina

Detalhe da Capela Sistina - A Criação de Adão - Michelangelo
O endereço abaixo possibilita uma visualização, em 3D, de parte da obra de Michelangelo. Capela Sistina - Vaticano.
http://www.vatican.va/various/cappelle/sistina_vr/index.html

Michelangelo foge ao determinismo mecanicista renascentista quando retrata o homem livre do canône matemático do compasso e da proporção entre o todo e as partes (Conferir: O Homem Vitruviano, Da Vinci). É possível visualizar, em sua obra, traços de um idealismo artístico-religioso ao retratar um corpo humano poderoso enquanto sinônimo de uma alma virtuosa.

Homem Vitruviano. Leonardo da Vinci.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Para que serve aquilo que importa?

Créditos: www.malvados.com.br
Há um antigo conto espanhol que apresenta a sina de um jardineiro em podar um loureiro. Com o propósito de agradar ao dono do arbusto o jardineiro procurou obter uma forma simétrica admirável. Após algum tempo de trabalho se distanciou do louro para uma apreciação. Julgou que ainda não havia encontrado as linhas ideais. Tesouras em punho retomou o trabalho. Depois de mais um tempo voltou a distanciar-se do objeto de seu labor. Contemplou-o sob vários ângulos e nada. Ainda eram necessárias mais algumas tesouradas ágeis. Depois de tanto trabalhar percebeu que havia, enfim, podado o louro em formas simétricas perfeitas e incontestáveis. Nada fugira de seus critérios técnico-artísticos. Satisfeito tratou de convocar o patrão para apreciar o feito. Ao se posicionarem frente ao arbusto o jardieniro foi parabenizado pelo dono do louro. "- Parabéns! Excelente trabalho! Porém, onde está o loureiro?"
No anseio de obter a forma perfeita e ideal que pudesse ser tomada como parâmetro para todas as demais podas de loureiro e que pudesse ser objeto de admiração e encanto de todo público apreciador, o jardineiro teria descaracterizado o arbusto ao ponto de não ser mais possível identificar ali um loureiro. 
A história do jardineiro parece revelar uma velha discussão que permeia o cotidiano de boa parte das pessoas, a relação conteúdo X forma; livro X equipamentos de musculação. Qual é o centro dos valores das ações humanas? Cabe refletir: a corrida estética existente na sociedade contemporânea tem como norte a obtenção de formas físicas ideais que possam ser assumidas como modelo para toda uma geração que, ao cultuar uma condição física ideal, não aceita envelhecer ou esta corrida estética teria uma intenção mais ampla, a saber: assegurar um envelhecimento saudável desta e das gerações futuras? Ademais, somente é posível envelhecer saudavelmente submentendo-se, durante a juventude, a uma rotina de exercícios que, cada vez mais, expoem as forças físicas aos seus limites?